COORDENADORES: João Arriscado Nunes e António Sousa Ribeiro
A vocação e a tradição
transdisciplinares do CES representam um capital adquirido que permite
definir uma área de investigação capaz de combinar
produtivamente duas abordagens entrecruzadas: os estudos sociais
da ciência, com a sua acentuação da relação
complexa entre processos de produção do conhecimento
científico e as formas da sua aplicação social;
e uma perspectiva centrada nos diferentes conjuntos de questões
decorrentes das reconfigurações dos saberes na contemporaneidade.
Essas reconfigurações de saberes passam, hoje, pelas
transformações das relações entre o
conhecimento científico e as tecnologias, os saberes práticos,
locais e situados dos cidadãos e os saberes "tradicionais",
associados a grupos sociais ou a populações ligadas
a territórios e a histórias particulares. Esta questão
põe-se de maneira particularmente premente nos países
de língua oficial portuguesa, no plano da relação
entre modernização e tradição. A confluência
dessas diferentes formas de conhecimento, de saberes e de experiências
obriga a um reconhecimento das diferenças culturais que as
humanidades estão especialmente apetrechadas para identificar
e tratar de um modo capaz de respeitar a diversidade e de potenciar
a riqueza resultante dessa diversidade para procurar soluções
adequadas e equitativas para os problemas sociais, ambientais e
de saúde que marcam as sociedades contemporâneas.
Esta área temática contempla ainda a reconceptualização
dos estudos literários para uma problematização
rigorosa da linguagem e dos seus usos.
Este trabalho de articulação da diversidade cultural
é particularmente importante para o desenho de modos de equacionar
os problemas associados às transformações tecnológicas
e aos seus impactos sociais e ambientais e para a promoção
do debate e da participação públicas que, numa
sociedade democrática, são a condição
para a definição de políticas que respeitem
os cidadãos e as comunidades.
A realização destes objectivos passa por acções
de colaboração transdisciplinar e transinstitucional,
com instituições de investigação científica,
organizações não- governamentais nas áreas
do ambiente, da saúde e da cooperação, organismos
consultivos (como o Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento
Sustentável) e instituições envolvidas na definição
e promoção de políticas públicas. A
eleição de um investigador do CES (João Arriscado
Nunes) para o Conselho da European Association for the Study of
Science and Technology cria uma situação privilegiada
para a promoção de colaborações transnacionais
e sua coordenação, como acontece, já, com a
constituição em curso de uma rede europeia sobre segurança
alimentar, agricultura, biotecnologia e políticas públicas.
Esta área contempla quatro linhas de investigação
e de intervenção principais:
1. Novos direitos e informação:
(i) os novos direitos ligados à genética, à
informação e ao ambiente; (ii) as condições
de acesso à informação e de protecção
dos cidadãos, dos seus direitos e da confidencialidade em
áreas como as tecnologias de informação, a
genética humana e a biotecnologia, os problemas ambientais,
a saúde pública.
2. Risco, precaução e transparência:
(i) as formas de identificação e avaliação
de riscos sociais ambientais, de saúde ou tecnológicos;
(ii) a organização social de dispositivos de prevenção,
alerta e vigilância nessas áreas; (iii) as formas de
envolvimento e participação dos cidadãos, de
produção e divulgação de informação
sobre riscos e situações de risco, de debate e de
deliberação colectiva; (iv) a relação
entre controvérsia científica, decisão política
e participação dos cidadãos.
3. Debates prospectivos sobre a cultura na
sociedade da informação e do conhecimento:
(i) os territórios emergentes da cultura associados às
novas tecnologias da informação e comunicação;
(ii) a reorganização dos saberes e as transformações
da educação; (iii) as "duas culturas" e
as novas relações entre humanidades, ciências
naturais e ciências sociais; (iv) o papel central das humanidades
na redefinição da cultura e do campo cultural; (v)
a função do poético na pergunta pelo saber;
(vi) as consequências epistemológicas da reconfiguração
das fronteiras entre arte, cultura e ciência.
4. Conhecimentos "tradicionais"
e mudança social: as formas "tradicionais"
de conhecimento e a sua relação com o conhecimento
científico e tecnológico no quadro dos processos de
mudança social nos países de língua oficial
portuguesa.
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