| A SIDA, os emigrantes e os mosquitos
não são uma perversidade. São a consequência
normal de uma globalização perversa |
O que hoje designamos por globalização neoliberal
é a versão mais recente da dominação que a Europa, desde há cinco
séculos, a América do Norte, desde há um século, e o Japão, desde
há quatro décadas, exercem sobre o resto do mundo. As versões anteriores
foram o colonialismo e o imperialismo. Em qualquer destas versões,
a dominação assumiu duas formas principais: exploração e opressão.
Qualquer delas começou por ser exercida no interior dos países desenvolvidos
e foi depois difundida no sistema mundial. A diferença entre as
duas formas é a seguinte. No caso da exploração, há uma relação
directa e desigual entre o explorador e o explorado, e de tal modo
que o explorador não existe sem o explorado. A relação entre o senhor
e o escravo e entre o patrão e o operário foram nos últimos séculos
as duas grandes formas de exploração. No caso da opressão, a relação
desigual não é directa e sim estrutural, e por isso nem o opressor
precisa do oprimido, nem o oprimido sabe muitas vezes quem é o opressor.
Um desempregado, um deficiente, um camponês autónomo, uma mulher,
um membro de uma minoria étnica ou religiosa podem ser oprimidos
sem serem explorados. A nível mundial, entre as classes dominadas,
os explorados foram sempre um pequeno grupo quando comparado com
a massa dos oprimidos, e as classes dominantes dos países desenvolvidos
temeram sempre mais os explorados que os oprimidos. Os explorados
foram o motor do sistema, enquanto os oprimidos foram um resíduo
descartável.
O que há de novo na globalização neoliberal é a fusão tendencial
entre explorados e oprimidos. Transformado o trabalho num recurso
global, tornou-se tão fácil explorar que os explorados deixaram
de ser uma ameaça e passaram a ser tão descartáveis quanto os oprimidos.
Por isso, as classes dominantes nunca foram tão arrogantes como
hoje, nem nunca temeram tão pouco o fim dos seus privilégios. Mas
como a história tem razões que a razão dominante desconhece, os
oprimidos, sobretudo os do chamado Terceiro Mundo, têm vindo a transformar-se
nas últimas décadas numa fonte insuspeitada de temores e ameaças.
Saliento três. A primeira ameaça é a SIDA. Desde que, segundo se
crê, nos anos 40, um caçador na África Central recebeu de um macaco
o HIV, a África sub-sahariana transformou-se gradualmente numa bomba
relógio: 15 milhões de mortos e 70% da população mundial de seropositivos.
A ameaça reside no perigo da propagação alargada da epidemia ao
mundo desenvolvido e nos prejuízos para os negócios que este último
pretenda expandir em África.
A segunda ameaça são os imigrantes clandestinos. Como bem demonstra
a nova lei sobre a imigração ao selar a sorte dos emigrantes ao
contrato de trabalho, o emigrante só interessa à Europa enquanto
explorado; o emigrante oprimido, em busca de uma vida melhor, é
uma ameaça. Felizmente, a imigração clandestina encarregar-se-á
de pôr cobro a esta hipocrisia. A terceira ameaça são os mosquitos
portadores de doenças, que viajam hoje tanto de avião quanto os
executivos das multinacionais. A Organização Mundial de Saúde acaba
de lançar o alerta contra "a malária de aeroporto", e quem viaja
de África para a Europa já se habituou ao ritual do Primeiro Mundo
a defender-se do Terceiro Mundo pela mão das hospedeiras, que percorrem
a cabine do avião empunhando latas de insecticida. Apesar disso,
a malária e o dengue chegam ao centro do mundo pela internet dos
oprimidos. A SIDA, os emigrantes e os mosquitos não são uma perversidade.
São a consequência normal de uma globalização perversa. |