| Apesar das promessas
da biotecnologia, são cada vez mais evidentes os perigos
dos alimentos transgénicos |
A repercussão mundial da condenação do agricultor
francês José Bové por ter organizado a destruição de um restaurante
MacDonald's em protesto contra a invasão americana de carne com
hormonas e alimentos transgénicos é mais um exemplo de que a globalização
é hoje um fenómeno complexo que escapa por vezes ao controle do
capitalismo global e é susceptível de se virar contra ele. Uma semana
antes da condenação, Bové estivera na cidade norteamericana de Madison,
donde escrevo, a falar a milhares de pessoas reunidas para defender
a agricultura sustentável e a qualidade da alimentação contra os
perigos da engenharia genética.
Tudo leva a crer que os alimentos transgénicos sejam um dos temas
mais debatidos nos próximos anos, uma vez que neles se chocam os
interesses económicos das grandes empresas de biotecnologia com
as preocupações crescentes dos Governos e dos cidadãos quanto aos
perigos ambientais e para a saúde pública decorrentes dos organismos
geneticamente modificados. Ao contrário do que se pode pensar, mesmo
nos EUA tem vindo a diminuir o apoio da opinião pública aos alimentos
transgénicos e é por essa razão que as empresas de biotecnologia
acabam de lançar uma campanha massiva de relações públicas (no valor
de 52 milhões de dólares) destinada a promover os benefícios dos
seus produtos. A controvérsia incide sobre três questões principais:
perigos para a sáude pública; impacto ambiental; eliminação da fome
no mundo.
Apesar de todo o alarido sobre a descodificação do genoma humano,
sabe-se muito pouco sobre o funcionamento biológico do material
genético nas plantas, nos animais e nos seres humanos e, à luz disto,
não é possível garantir a inocuidade dos alimentos transgénicos
para a saúde pública. São três os perigos principais: aumentos imprevisíveis
de toxicidade nos alimentos; criação de bactérias resistentes aos
antibióticos actualmente em uso; agravamento das reacções alérgicas.
Os principais perigos ambientais são os seguintes: poluição biológica:
o pólen das plantas transgenéticas não respeita as demarcações dos
terrenos e a sua interacção com as plantas convencionais não é conhecida
nem é controlável. Dependência química: os líderes da biotecnologia
- Monsanto, DuPont, Aventis e Novartis - estão ligados às empresas
químicas que produzem pesticidas e herbicidas; está hoje provado
que os agricultores de produtos transgénicos usam mais esses e outros
produtos químicos que os agricultores convencionais. Diminuição
da biodiversidade: as plantas transgénicas, por terem genes que
lhes permitem sobreviver em ambientes hostis, podem vir a sobrepor-se
às demais espécies e a conduzir a extinção de muitas delas.
Finalmente, no que respeita à possível eliminação da fome no mundo
prometida pela agricultura transgénica, as dúvidas acumulam-se e
com boas razões. Em 1999, 99% das plantações transgénicas tiveram
por objectivo controlar as pragas e não aumentar a produção ou o
valor nutritivo. Por outro lado, o problema da fome no mundo - 800
milhões de pessoas segundo os cálculos das Nações Unidas - não é
um problema de produção. De facto, o mundo produz hoje o suficiente
para alimentar cada habitante do planeta com cerca de dois quilos
de comida por dia. O problema da fome é um problema de desigualdade,
de injustiça e de pobreza. |