| Nader e Rosas representam o
inconformismo dos cidadãos ante uma política que
só tem soluções para os políticos
e os grandes interesses económicos |
Os norteamericanos estão a poucos dias de eleger
o seu Presidente e os portugueses vão-se preparando para fazer o
mesmo. As realidades sociais e políticas dos dois países são tão
distintas que as comparações fazem pouco sentido. Há, no entanto,
sintomas comuns que merecem alguma reflexão.
As mesmas
razões que, como referi na crónica anterior, têm levado a maioria
dos norteamericanos a desinteressarem-se da política têm levado
alguns sectores inconformados a buscar uma alternativa que torne
a pôr os cidadãos comuns no centro das decisões políticas. Essa
busca tem vindo a intensificar-se nos últimos anos e o seu resultado
mais conseguido é a actual candidatura de Ralph Nader, proposta
pelo Partido dos Verdes e uma vasta coligação de movimentos cívicos.
Nader tem a credibilizá-lo 40 anos de luta em defesa dos consumidores
e dos trabalhadores contra o grande capital. O seu compromisso eleitoral
é uma forte pedrada no charco: financiamento público dos partidos;
salários mínimos que ponham fim ao absurdo de, depois de dez anos
de crescimento económico, a maioria dos trabalhadores ganhar hoje
menos e trabalhar mais 160 horas por ano que em 1973; defesa do
sistema de segurança social; criação de um seguro universal de saúde
financiado pelo Estado; controle apertado da licença de porte de
armas; abolição da pena de morte; legalização das uniões de homossexuais;
um vasto programa de defesa do meio ambiente; abolição dos obstáculos
à sindicalização; fim da Organização Mundial do Comércio e da sua
hostilidade aos direitos dos trabalhadores e dos consumidores do
meio ambiente; redução de 20% das despesas militares. Nader necessita
de obter 5% dos votos para o Partido dos Verdes passar a ter financiamento
do Estado. O grande obstáculo reside na iminência de Al Gore perder
as eleições. Ante o fantasma do voto útil, muitos cidadãos de esquerda
acabarão por votar no "menos mau".
Em Portugal
a situação é muito distinta, até porque não há (infelizmente) expectativa
de a esquerda se unir atrás de um único candidato. Mas há um sintoma
comum: ao fim de 15 anos de integração na UE, as grandes reformas
estruturais estão por fazer, as desigualdades sociais continuam
a aumentar, o debate político não existe e nenhum dos grandes partidos
parece ter soluções eficazes para os problemas do país. Não admira
que muitos portugueses estejam hoje desiludidos da política e dos
políticos. Mas tal como nos EUA, um sector inconformado tem vindo
a procurar uma alternativa. E, de facto, encontrou-a nas últimas
eleições legislativas com a eleição dos dois deputados do Bloco
de Esquerda. Em menos de um ano, o BE consolidou de forma brilhante
essa alternativa: a força política mais eficaz com 28 propostas
de lei apresentadas, 8 aprovadas na generalidade e 1 na especialidade;
106 requerimentos ao Governo; linha aberta aos cidadãos; intervenção
progressista em áreas tão diversas quanto a segurança social, financiamento
dos partidos, laicização do Estado, reconhecimento das medicinas
alternativas, ensino superior, farmácias públicas nos hospitais,
uniões homossexuais.
Fernando
Rosas tem a caucioná-lo não um passado como o de Nader, mas o trabalho
notável do BE, sem dúvida o único facto político novo e verdadeiramente
auspicioso depois da candidatura presidencial da Eng. Maria de Lourdes
Pintasilgo em 1986. E, ao contrário dos norteamericanos, os portugueses
de esquerda que votarem em Rosas para fortalecerem o BE fá-lo-ão
livres do fantasma do voto útil já que é certo que o Presidente
Sampaio ganhará tranquilamente as eleições.
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