| As eleições norteamericanas
vieram revelar fragilidades perturbadoras na mais forte democracia
do mundo |
Faz hoje oito dias os estudantes da Universidade
de Madison-Wisconsin pediram-me que discutisse com eles as eleições
presidenciais. Acedi com gosto sobretudo porque detectei neles uma
ansiedade profunda sobre a natureza e a qualidade da democracia
norteamericana. A maioria dos estudantes tinha votado Gore ou Nader
ou tinha-se abstido. Eis os principais temas de debate e algumas
das conclusões a que chegámos: 1. O financiamento privado do sistema
político é o cancro da democracia norteamericana. Os grandes interesses
económicos nunca investiram tanto como nesta campanha e, apesar
de investirem nos dois partidos, investiram muito mais em Bush do
que em Gore. O desequilíbrio foi particularmente grande nos sectores
onde as propostas de Gore significavam perdas de lucros potenciais:
seguros, saúde, armamentos, petróleo. Este desequilíbrio contribuiu
para que um candidato reconhecidamente medíocre e ignorante pudesse
disputar em pé de igualdade com um candidato muito mais preparado,
Vice-Presidente de um governo que preside a um crescimento sem precedente
da economia. 2. O paroxismo da venda televisiva das imagens visa
eliminar as diferenças das agendas políticas para que os pobres
e as classes médias tenham dificuldade em identificar os seus interesses.
Daí que 50% dos norteamericanos não tenha votado. As mulheres foram
o grupo social que melhor superou a confusão mediática: Gore teve
neste grupo uma vantagem de 20% sobre Bush. 3. O factor Nader foi
decisivo nos resultados e para ele contribuiu o facto de Gore ter
negligenciado a sua paixão ambientalista e ter, no passado, alinhado
em votações decisivas com os sectores mais conservadores. É debatível
se o factor Nader contribuirá no futuro para uma viragem à esquerda
do partido democrático, ou, pelo contrário, para uma viragem à direita.
Uma coisa é certa: as causas cívicas por que Nader tem lutado vão
sentir nos cofres, se Gore perder, a raiva dos congressistas democráticos.
Os jovens perguntam-se: será que os norteamericanos de esquerda
estão condenados a colocar na Casa Branca o candidato mais conservador
sempre que decidem votar em consciência?
4. Estas
eleições vieram revelar algumas facetas perturbadoras da democracia
americana e os jovens perguntam-se se a transparência democrática
é nos EUA muito superior à dos países democráticos do Terceiro Mundo:
como é possível que o Presidente possa ser eleito sem a maioria
do voto popular e com a maioria duvidosa do colégio eleitoral? Porque
não abolir o colégio eleitoral? Porque não se vota ao domingo, como
na maioria dos países? Como é possível eleger um candidato morto?
Porque é que as eleições, sendo federais, se cruzam com leis estaduais
que variam enormemente? Porque se deu à televisão o poder de distorcer
os resultados globais, transmitindo resultados parciais quando as
mesas de voto ainda não encerraram? Porque é que se tentou abafar
agora, como já se fez no passado, as suspeitas graves de corrupção
na contagem dos votos? Que transparência é esta quando nenhuma contagem
coincide com a anterior? Para responder a algumas destas questões
muitos dos estudantes lembram-se do Centro Carter que nos últimos
três anos fiscalizou eleições em Moçambique, Timor Leste, Nigéria,
Indonésia, Libéria e as eleições de aldeia na China? E porque não
as eleições norteamericanas? Em Maio de 1999, o Centro Carter realizou
a sua primeira acção de fiscalização nos EUA: as eleições para o
chefe tribal e para os 15 membros do Conselho Tribal dos índios
Cherokees. Porque só os índios?
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