|
Na semana passada reuniram-se em Coimbra 60 investigadores de 6
países diferentes, no âmbito de um projecto intitulado "A Reinvenção
da Emancipação Social" que estou a dirigir no Centro de Estudos
Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, financiado
pela Fundação MacArthur (investigação realizada na África do Sul,
Brasil, Colômbia, Índia e Moçambique) e pela Fundação Calouste Gulbenkian
(investigação realizada em Portugal). Neste projecto estamos a analisar
os movimentos e as lutas que em vários países resistem contra a
globalização neoliberal, tão dinâmica quanto predadora, contra a
exclusão social, a corrupção e os novos totalitarismos privados
que ela engendra. Trata-se de lutas difíceis em que os seus protagonistas
correm muitos riscos mas que nem por isso deixam de proliferar animadas
por cidadãos que se recusam a cruzar os braços. Ao planear este
encontro, mal podia imaginar que o iria dedicar a um desses cidadãos
inconformados com as injustiças do mundo e, ainda por cima, a um
querido amigo, o Carlos Cardoso.
Duas horas antes de ser assassinado, Carlos Cardoso tinha confirmado
ao Juiz Conselheiro João Carlos Trindade que no dia seguinte faria
uma palestra sobre "O Papel da Comunicação Social na Luta contra
a Criminalidade" no Centro de Formação Jurídica e Judiciária, uma
instituição recente e inovadora onde estão a formar os magistrados
e demais pessoal do sistema judicial em construção. Calaram-no a
tiro antes que pudesse falar. Aliás, na opinião dos seus assassinos,
ele já falara demais e por isso o mataram. Um dos pioneiros dos
jornais por fax, Carlos Cardoso transformara o Metical na
voz dos que não tinham voz ou tinham medo de falar. Um entusiasta
do processo de paz e de democratização, Cardoso previra antes que
ninguém o perigo de vincular o objectivo nobre da democracia às
imposições violentas da globalização neoliberal, ao desmantelamento
das frágeis estruturas produtivas, à privatização atribiliária,
incubadora de corrupção, à perda das referências ideológicas e éticas
da luta por uma sociedade melhor e mais justa com que Samora Machel
tinha inspirado toda uma geração de jovens moçambicanos.
Carlos Cardoso era um nacionalista esclarecido, um homem que acreditava
na emergência de uma burguesia nacional, não de uma burguesia corrupta
e rentista empenhada apenas em captar os negócios chorudos das privatizações,
mas sim de um burguesia produtiva capaz de maximizar a produção
dos recursos e produtos que Moçambique poderia colocar no mercado
mundial. A força desta convicção era o que verdadeiramente o movia
na luta contra a corrupção, o oportunismo e as violações dos direitos
humanos: a especulação dos terrenos, o escândalo do BCM e do Banco
Austral, a queima de pesticidas, a violência policial, os aumentos
dos salários dos vereadores do Conselho Municipal, a corrupção nos
serviços de floresta e nas alfândegas, etc. A sua luta pela democracia,
pela transparência e pela integridade era incondicional e implacável.
Exigia de si uma total independência. Tanto atacava a Renamo como
falava das "alas gangsterizadas da Frelimo". Actuava, pois, sem
padrinhos. Foi fácil abatê-lo.
Três apelos: que a Carlos Cardoso seja atribuído um grande prémio
internacional de jornalismo de investigação; que os jornalistas
moçambicanos não se deixem intimidar e continuem o Metical e o espírito
do Metical; que o Governo, tal como já prometeu, não se poupe a
esforços para punir os criminosos já que este caso vai ser um teste
decisivo à investigação criminal, ao sistema judicial e à democracia
em Moçambique.
|