| A UE é agora a única
esperança dos latino-americanos contra o Plano Colômbia
que ameaça vietnamizar toda a região |
Tenho sempre defendido que a UE deve ter uma política
externa autónoma em relação aos EUA. Entre outras razões, porque
o poder militar dos EUA excede em muito o seu poder económico, tendo
este último sempre a tentação de recorrer ao primeiro para prevalecer.
Daqui decorrem a distorção da concorrência entre os blocos económicos
e a crescente militarização do mundo. O conflito mais explosivo
dos próximos anos pode vir a ocorrer na Colômbia, em resultado da
aplicação do Plano Colômbia, com impactos decisivos na região. A
UE, e muito particularmente Portugal e a Espanha, Têm responsabilidades
históricas que não podem alijar sob qualquer pretexto.
O Plano
Colômbia foi proposto em Agosto de 1998 pelo novo Presidente da
Colômbia para mobilizar o apoio da comunidade internacional para
o processo de paz que prometera encetar. O objectivo era partir
da paz - pouco depois iniciavam-se as negociações com o maior grupo
guerrilheiro, as FARC - para promover um amplo programa de desenvolvimento
social que permitisse oferecer aos camponeses pobres uma alternativa
real ao cultivo da coca. Acontece que, uma vez entregue nas mãos
dos EUA, o Plano sofreu, entre 1998 e 2000, uma radical transformação:
de um plano de paz e desenvolvimento passou a um plano de ajuda
militar destinado a eliminar a guerrilha, envolvendo a guerra química
- a fumigação das culturas da droga - no Sul da Colômbia, há muito
controlado pelas FARC. A "ajuda" norte-americana é de 1,3 biliões
de dólares, dos quais cerca de 75% são destinados a objectivos militares:
compra de helicópteros e radares, treino e equipamento de três batalhões
especiais do exército colombiano.
Uma vez
posta em movimento, esta máquina de guerra vai ter efeitos devastadores:
muitos milhares de mortos e ainda mais de deslocados; destruição
ecológica; aprofundamento do conflito armado; eliminação final das
organizações da sociedade civil que teimam em lutar pela paz e pela
defesa dos direitos humanos. Os vizinhos - sobretudo o Equador,
Venezuela, Panamá, Brasil e Peru - vão ter um quinhão largo destes
efeitos: invasão dos deslocados; aumento da violência em resultado
do refúgio dos guerrilheiros, dos paramilitares e dos traficante.
Foi o Boston Globe, e não Hugo Chavez, quem pela primeira
vez falou da Vietnamização da região.
A Declaração
da UE emitida em Bogotá em 24 de Outubro passado é elucidativa do
crescente afastamento da UE em relação ao Plano Colômbia. No entanto,
é uma posição tímida que deixa a América Latina sem uma alternativa
real. Em meu entender, essa alternativa deve assentar no seguinte:
1) dar prioridade total aos direitos humanos e à paz. 2) Mostrar
que do meio trilião de dólares que a droga rende anualmente, metade
circula no sistema financeiro dos EUA e a Colômbia não recebe mais
de 2% a 3% e que, por isso, a luta contra a droga tem de incidir
tanto na oferta como na procura. Os camponeses são o elo fraco e
por isso são os visados, apesar de não lhes caber mais do que 0,6%
dos lucros do negócio. 3) Lutar contra um século de proibicionismo
norte-americano, mostrando que a legalização das drogas é o único
caminho eficaz para pôr termo aos lucros fabulosos que semeiam a
morte, tanto em quem produz, como em quem consome. Esta alternativa
acentuaria a autonomia da UE e daria esperança aos latino-americanos.
Seria uma posição de princípio que em caso algum poderia funcionar
como moeda de troca de outros conflitos entre a UE e os EUA, como,
por exemplo, os actualmente pendentes na Organização Mundial do
Comércio.
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