|
Porto
Alegre foi uma demonstração eloquente que não existe globalização
e sim globalizações. Para além da globalização neoliberal do capitalismo
que só aceita as regras que ele próprio impõe, há uma globalização
alternativa, a globalização de um desenvolvimento democraticamente
sustentável, das solidariedades e das cidadanias, de uma prática
ecológica que não destrua o planeta, e de uma sociedade global que
só aceite o comércio livre enquanto comércio justo. Este foi o grande
mérito de Porto Alegre uma vez que até agora se dizia que os que
se opunham às reuniões do Banco Mundial, do FMI, da OMC eram grupos
contra a globalização e sem alternativas. Mostrámos aqui que somos
a favor da globalização, mas de uma globalização justa que não produza
a destruição e miséria para a maioria da população mundial. Quando
se verifica que quatro cidadãos americanos têm tanta riqueza quanto
o conjunto de 43 países menos desenvolvivos com uma população de
600 milhões de pessoas, não é preciso ser de esquerda para considerar
que isto, além de injusto, é absurdo. E é absurdo precisamente porque
há alternativas realistas, tanto no plano técnico como no plano
político. Entre as que foram aqui apresentadas menciono, a título
de exemplo, o perdão da dívida dos países menos desenvolvidos; o
imposto Tobin sobre as transacções financeiras de divisas que gerariam
200 biliões de dólares por ano para o desenvolvimento; a democratização
do FMI e do BM; a articulação entre os grandes países de desenvolvimento
intermédio - Brasil, Índia, África do Sul, etc. - para negociarem
em conjunto melhores condições com as instituições multilaterais;
a aplicação de boa fé da Convenção da biodiversidade e dos acordos
sobre o efeito estufa; a aceitação de parâmetros de qualidade mínima
do trabalho usado na produção dos produtos que circulam no mercado
mundial. Tudo isto é possível e está ao nosso alcance. Os 4000 delegados
que estiveram em Porto Alegre e as centenas de organizações que
aqui apresentaram o seu trabalho e as suas iniciativas foram uma
demonstração pujante de que as alternativas estão apenas à espera
da força política da sociedade civil global para serem postas na
agenda política internacional. Foi esta sociedade civil global que
teve aqui um auspicioso ponto de partida. Por isso Porto Alegre
tem de ser prosseguido e vai ser prosseguido. Está decidido que
em 2002 se reunirá de novo e de novo aqui, nesta cidade que se está
a transformar na cidade global das alternativas. E tem uma justa
aspiração a esse estatuto em vista da portentosa capacidade organizativa
que revelou. Claro que o próximo Fórum não será igual ao primeiro,
pois aprendemos aqui que há ajustamentos a fazer na articulação
entre as temáticas e há ainda que tornar o Fórum mais mundial (por
exemplo, os países de língua portuguesa tiveram uma presença modesta).
Mas com este começo tão auspicioso, estou certo que se farão todos
os acertos para tornar o próximo Fórum uma afirmação ainda mais
pujante da globalização alternativa.
|