| Os
nossos brandos costumes são uma prisão perpétua bem mais séria
que a que pode ser imposta pelo Tribunal Penal Internacional |
O debate em curso sobre a ratificação do Tribunal
Penal Internacional é importante não tanto pelas questões jurídicas
e constitucionais que levanta, mas pelo que nele se revela sobre
o nosso imaginário colectivo e a nossa identidade como nação, e
o modo como nos apropriamos deles consoante os interesses e as circunstâncias.
Raramente estes rios subterrâneos afloram no debate político apesar
de sempre lhe alimentarem as raízes. Isto acontece porque o debate
político é muito codificado tanto na linguagem como no horizonte
de posições que legitima. Tudo o que extravasa do código é facilmente
descredibilizado por irrelevante, despropositado ou senão mesmo
ofensivo. Só assim não sucede nos raros casos em que o debate político
é surpreendido por uma questão que escapa à codificação. Quando
o código vacila deixa-se inundar pelo magma social. É isto o que
está a suceder no caso do TPI.
A ninguém
escapará que as posições sobre o TPI não se quadram com o dualismo
básico do código político: esquerda e direita. As diferenças de
opinião atravessam tanto a esquerda como a direita, dando lugar
a convergências e divergências surpreendentes. Isto não significa
que a posição sobre o TPI esteja para além ou acima da divisão esquerda/direita.
Significa apenas que nem a esquerda nem a direita conseguiram até
agora codificar o que está em causa no TPI. Não surpreende que assim
seja. Tanto a esquerda como a direita constituíram as suas identidades
por referência ao Estado e à sociedade nacionais e têm, por isso,
dificuldade em codificar uma instituição que, sendo o embrião de
uma governação e de um espaço público transnacionais, interfere
com as matrizes nacionais de referência.
É uma
circunstância propícia à emergência do nosso imaginário colectivo
povoado pela nossa diferença em relação aos demais povos europeus
e pelos nossos brandos costumes ensopados num caldo de humanismo
cristão conservador. Como todo o imaginário, é selectivo e discriminador:
privilegia a precedência histórica na abolição da pena de morte
e o carácter incruento das convulsões políticas de que não se esquece;
branqueia a ditadura, os seus crimes e a guerra colonial; faz vista
grossa às violações dos direitos humanos dos trabalhadores, dos
imigrantes, das minorias, dos doentes em lista de espera e dos presos
em prisão preventiva. Este imaginário é apropriado diferentemente
pelos diferentes participantes no debate sobre o TPI. Quem à direita
é contra vê no TPI uma agressão anti-nacionalista e na prisão perpétua
uma contradição com os nossos brandos costumes. Quem à direita é
a favor orienta-se pela ideia de que a modernização democrática
e conservadora da sociedade portuguesa tem de ocorrer num marco
internacional económico, político e cultural, sendo o TPI uma fatalidade.
Quem à esquerda é contra vê no TPI um atentado à soberania nacional
e na prisão perpétua um possível veículo para que a tentação autoritária
que habita os nossos brandos costumes venha a contrabandear no futuro
outras excepções aos direitos, liberdades e garantias. Quem à esquerda
é a favor coloca num prato da balança o indesejado regresso da prisão
perpétua e no outro a possibilidade de Portugal participar numa
luta internacional de prevenção contra os regimes totalitários;
decide-se a favor do último tanto mais que, dada a tentação autoritária
caseira, a democracia portuguesa está mais segura se estiver na
frente da defesa da democracia a nível internacional.
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