| Nas
nossas relações com o Estado todos temos um pouco de paivenses,
souselenses, canenses e barranquenhos |
Por trágicas razões, os portugueses viram nas últimas
semanas a sua identidade nacional acrescentada de mais uma sub-identidade,
a de paivenses. Esta nova identidade veio juntar-se a algumas outras
que em tempos recentes têm vindo a enriquecer a soma do que somos.
Distingo três: souselenses, canenses e barranquenhos. O que há de
comum entre as populações que reivindicam estas identidades é o
partilharem entre si a distância a que são votadas pelo Estado,
uma distância que se traduz em esquecimento ou em incompreensão,
mas que envolve sempre arrogância política e cultural. Por isso,
apesar de muito distintas entre si, estas identidades têm muito
em comum e as reivindicações em que se traduzem só poderão ser satisfeitas
se o Estado reinventar globalmente o seu modo de se relacionar com
o país.
Estas
identidades são distintas, porque são distintas as formas de arrogância
política e cultural a que são sujeitas. Distingo quatro formas de
arrogância. A primeira é a arrogância do esquecimento, ilustrada
pela situação dos paivenses. É a arrogância do Estado novo-rico
que se esquece ou tem vergonha do parente pobre que vive na província,
algures para além do Parque das Nações. O parente pobre escreve-lhe
cartas anos a fio a contar de si e das suas dificuldades. Vão todas
para o lixo até que um dia acontece uma desgraça maior. Minado pela
má consciência momentânea, o novo-rico desfaz-se em atenções pelo
tempo necessário, sempre breve, para a aplacar. A segunda forma
de arrogância é a arrogância da imposição de riscos ilustrada pela
situação dos Souselenses. É a arrogância das decisões autoritárias
sobre riscos e probabilidades de acidente, avalizadas por uma ciência
encomendada e duvidosamente científica. Tais decisões são impostas
a populações pobres, politicamente indefesas sobre o pretexto de
que têm de ser solidárias para com um modelo de desenvolvimento
de que só partilham os custos.
A terceira
forma de arrogância é a arrogância da recusa de autonomia, ilustrada
pela situação do povo de Canas de Senhorim. É a arrogância com que,
sob o falso pretexto de racionalidade administrativa, os jogos político-partidários
amordaçam a legítima aspiração de uma localidade a ser sede de concelho
(que, aliás, já foi). Vinte e cinco anos de luta contra um muro
de incompreensão centralista alimentados por uma forte pulsão identitária
e com o único objectivo de realizar na prática o que o Estado apenas
realiza nos discursos de inaugurações: evitar a desertificação do
interior. Finalmente, a quarta forma de arrogância é a arrogância
politicamente correcta ilustrada pela situação do povo de Barrancos.
Trata-se da arrogância de um Estado urbano e europeu novo que arvora
a sua moral pequeno-burguesa em norma universal e à luz dela criminaliza
as práticas "desviantes" de populações rurais postas na contingência
de terem de transformar a vontade ancestral da festa num direito
à diferença.
Porque
todas estas arrogâncias são variantes da mesma arrogância política
e cultural, há muito de comum entre paivenses, souselenses, canenses
e barranquenhos, e entre eles e cada um de nós. É por isso que o
direito dos paivenses à dignidade do desenvolvimento não será eficazmente
garantido sem o direito dos souselenses a defender a sua saúde contra
a co-incineração, o direito dos canenses a terem o seu concelho,
ou o direito dos barranquenhos à festa.
|