| A
ideia da Carta Constitucional da Cidade enriquece a democracia
portuguesa |
Realizou-se em Coimbra, no passado fim de semana,
o Congresso Pela Cidade, organizado pela associação cívica Pro Urbe.
Preparado ao longo dos últimos dois anos, o congresso foi um acontecimento
político importante e a sua importância excede em muito o âmbito
local.
Com a
crescente e rápida urbanização do mundo, a complexidade das cidades
está a transformar-se num dos mais exigentes desafios político-administrativos
do novo milénio. É já hoje ponto assente que a gestão dessa complexidade
exige uma nova cultura política e uma nova institucionalidade. Os
sistemas urbanos estão cada vez mais longe de situações de equilíbrio
e a sua dinâmica é muitas vezes caótica. Nestas circunstâncias,
pequenas oscilações (erros, inovações, etc.) podem dar origem a
consequências de grande escala. Assim, e paradoxalmente, a responsabilidade
dos decisores políticos aumenta na exacta medida em que o controlo
das consequências das decisões se torna mais precário. Esta turbulência
de escalas e o contexto caótico em que as decisões políticas e administrativas
se desenrolam estão a exigir uma nova cultura de proximidade e de
complementaridade entre cidadãos e governantes. É que só a partilha
da informação e da responsabilidade pelas decisões torna politicamente
controlável a gestão de consequências imprevistas, se não mesmo
perversas. Em termos políticos, isto significa que a gestão das
cidades tende a assentar cada vez mais numa nova institucionalidade
em que se combinam e complementam a democracia participativa (o
espaço público constituído pelos cidadãos activos e suas associações)
e a democracia representativa (os órgãos eleitos do poder local).
Na criação
desta nova institucionalidade reside a importância do Congresso
de Coimbra. Nele foi aprovado um documento pioneiro no nosso país,
a Carta Constitucional de Coimbra. Trata-se de um documento em que
se define a identidade da cidade e em que, à luz dela, se propõe
um novo pacto político (um conjunto de direitos e deveres) entre
cidadãos e decisores políticos e se propõem formas avançadas de
participação democrática. Para além da organização regular de congressos
da cidade e de conferências temáticas, propõe-se - e aqui reside
a maior novidade do documento - uma nova instituição de democracia
participativa: o Conselho da Cidade. Constituído por representantes
das associações cívicas existentes na cidade e por membros eleitos
nas conferências temáticas e nos congressos da cidade - a primeira
eleição, de 15 membros, teve lugar neste congresso - o Conselho
tem por função principal cooperar de forma activa, organizada e
autónoma na gestão da cidade, elevando a um patamar superior a participação
dos cidadãos e exigindo uma maior responsabilização e transparência
nas decisões políticas, locais ou nacionais, que afectam a cidade.
No fundo, trata-se de dar forma a uma das mais centrais exigências
políticas do nosso tempo: o controlo público do Estado, cada vez
mais em risco de ser privatizado por interesses económicos (ou outros)
poderosos. Pelo seu pioneirismo e também pelo equilíbrio dinâmico
que propõe entre a democracia participativa e a democracia representativa,
a Carta Constitucional de Coimbra vai por certo suscitar o interesse
de outras cidades. O documento pode ser solicitado a prourbe@aeiou.pt.
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