| Falta-nos
um espelho que nos restitua em corpo inteiro |
Vivemos um período atordoado por processos massivos
de destruição e de criação que deixam pouco espaço para consolidação
ou desenvolvimentos orgânicos. A destruição e a criação ocorrem
ao nível das instituições, das famílias, das empresas, dos hábitos
de convivência, da gestão do corpo. Estes processos são muito selectivos,
muito intensos em certas áreas da vida social e pessoal e quase
imperceptíveis noutras áreas. Daí que a vertigem da mudança conviva
de par com a sensação de estagnação. As mesmas pessoas que se viciam
na internet e consomem energy
drinks são as mesmas que fazem promessas a N. S. de Fátima
quando algo de sério lhes corre mal.
Períodos
deste tipo são difíceis de nomear e por isso os designamos por períodos
de transição, embora nem sempre seja fácil saber donde vimos ou
para onde vamos. O período actual tem uma vigência desigualmente
global, ou seja, tende a ocorrer em diferentes países mas em cada
um assume características específicas. Em Portugal as duas características
principais são a experiência da dualidade e a dificuldade da auto-reflexividade.
A experiência da dualidade consiste no aprofundamento dos contrastes
sociais, políticos, económicos e culturais. A dramatização desta
experiência entre nós pode exprimir-se na dualidade: Expo 98-queda
da ponte de Entre-os-Rios. De um lado, a pujança modernista do progresso,
da globalização e do multiculturalismo enquanto agentes e sinais
da conversão de Portugal num país desenvolvido e moderno; do outro,
um passado teimosamente presente de estagnação, abandono, descaso,
apontando a dedo um país com carências próprias de um país subdesenvolvido
incapaz de se transportar na totalidade para a Europa, para onde
até há pouco só se transportava como emigrante. Esta dualidade percorre
hoje a nossa economia, o Estado, as organizações da sociedade civil,
a nossa personalidade, enfim, a nossa vida.
Esta dualidade
está articulada já que nós somos um só país apesar de feito de muitos
países. Mas o conhecimento dessa articulação é muito difícil em
face da outra característica do período actual: a dificuldade da
auto-reflexividade. A auto-reflexividade é o processo pelo qual
os indivíduos e as sociedades reflectem sobre os processos de transformação
por que estão a passar e usam essa reflexão para orientar essa transformação.
Entre nós, a vertigem da mudança e da estagnação tornam muito difícil
esta auto-reflexividade. Para uns, as mudanças são tão rápidas e
tão promissoras que não há tempo para reflectir sobre elas. Há que
cavalgar a onda. Se um corretor de bolsa parar um minuto para pensar
na sua vida perde certamente dinheiro. Para outros, tornou-se tão
penosa a vida em resultado das mudanças (insegurança de emprego,
serviços públicos degradados, sáude à beira das más notícias, horas
intermináveis no trânsito, empobrecimento das relações familiares
"por falta de tempo") que, de duas uma, ou não há tempo para pensar
ou é melhor nem sequer pensar.
A experiência
da dualidade combinada com a dificuldade da auto-reflexividade fazem
com que os portugueses não se possam hoje ver num espelho que os
restitua de corpo inteiro. Em vez disso, têm de se ir vendo em vários
espelhos, cada um deles reflectindo uma imagem, parcial, tão verdadeira
quanto falsa. À mudança de um espelho para outro chamamos transição.
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