| Há
um outro estado da nação que corre nos subterrâneos dos debates
políticos, indiferente a eles |
Há um
outro estado da nação, o que não cabe no debate sobre o estado da
nação, o que não muda com mudanças de governo. Diz respeito a longas
durações na sociedade portuguesa, a pactos seculares das elites,
a desamparos e fragilidades de uma entidade colectiva abstracta
que todos amam: o povo. Este outro estado da nação revela-se no
particular, em acontecimentos que, apesar de isolados, revelam,
pela sua exemplaridade, aspectos cruciais da vida colectiva que
a conveniência política expulsa das generalizações com que constroi
o estado da nação oficial. Um desses acontecimentos é o caso da
Universidade Moderna, e refiro-o aqui pela exemplaridade com que
ele revela o outro estado da nação.
Sociedade
civil íntima. Há entre nós uma pequena sociedade civil cuja
intimidade com o Estado e a classe política lhe permite realizar
para benefício próprio uma dupla privatização do Estado, quer quando
o Estado abre mão dos bens públicos e os "devolve" à sociedade,
quer quando o Estado reserva para si a salvaguarda do interesse
geral. Esta sociedade civil não reconhece a distinção entre o público
e o privado e reproduz-se precisamente através da promiscuidade
que promove entre os dois domínios. Paradoxalmente, fá-lo recorrendo
a serviços e cumplicidades de profissionais a quem é pedido, a troco
de dinheiro, manterem a sua colaboração no nível estritamente técnico
e funcionalmente confinado e não perguntarem pelo "esquema maior"
em que se integram.
Desigualdade
perante a lei. Esta sociedade civil tem ao seu dispor todos
os recursos da legalidade e da ilegalidade, e usa uns ou outros
segundo as suas conveniências. Opera pelo tráfico legal e ilegal
de influências. Quando, raramente, a ilegalidade é descoberta, tem
ao seu serviço os melhores advogados e os mais competentes pareceres
dos professores de direito. Não há inconveniente, antes pelo contrário,
que haja conflitos de interesses. As elevadas remunerações existem
para os resolver. No caso concreto, não há contradição nenhuma em
que um dos advogados seja, por um lado, o pai e coordenador de uma
reforma que almeja uma fiscalidade mais justa e mais eficaz e, por
outro lado, defenda arguidos alegadamente envolvidos em evasões
e paraísos fiscais. Dada a "complexidade" do caso, haverá certamente
pareceres pelos quais são pagos milhares de contos. Passará despercebido
que os casos "complexos" são os casos de quem tem dinheiro para
comprar a complexidade.
A manipulação
da opinião pública. A sociedade civil íntima tem no espaço público
o seu maior inimigo e vê na comunicação social livre e independente
uma ameaça constante. Daí que a procure controlar e, como sempre,
pelo recurso em que abunda, o dinheiro. É, para ela, um factor de
esperança que haja em Portugal muitos jornalistas avençados, tanto
pelo Estado como pelos interesses económicos e que os jornalistas
livres e independentes vão sendo gradualmente substituídos por fabricantes
de conteúdos.
Este outro
estado da nação, que não se esgota neste elenco, é vivido como trivial
pelo cidadão comum enquanto olha ou lê distraído os debates sobre
o estado oficial da nação. Mas o trivial não é vivido necessariamente
com fatalismo. Por exemplo, no caso exemplar aqui referido, o cidadão
pensará com os seus botões: "se estes não forem parar à cadeia então
nunca mais nenhum poderoso será punido pela justiça que temos".
E ficará na expectativa.
|