| Os
silêncios da crise política são mais eloquentes
que as vozes por que ela se exprime |
Vejo-me
frequentemente a escrever na contracorrente. Na contracorrente a
escrita não pode confiar nas ondas para avançar. Tem
de procurar os seus pontos de apoio nos recessos e os recessos são
os silêncios absorvidos pelo alto ruído das ondas.
Na última semana, a onda da crise política foi alterosa,
uma onda feita de várias ondas: a onda dos comentadores políticos
sobre o desgoverno da remodelação e a remodelação
do desgoverno, a onda da auto-flagelação do PS pela
voz de destacados militantes e dirigentes, a onda da arrogância
da direita eufórica com as facilidades que não julgava
ter. Não é fácil ouvir os silêncios em
tamanha vozearia mas com algum esforço é possível
ouvir dois silêncios principais.
O primeiro
silêncio é o dos números. Tomando a Alemanha
Ocidental como termo de comparação (100%), a produtividade
do trabalho em Portugal era, em 1998, 34,5% e os custos salariais,
37,4%. Estes números eram para a Espanha 62% e 66,9%, respectivamente;
para a Inglaterra, 71,7% e 68%; e para a Irlanda, 69,5% e 71,8%.
Estas diferenças de produtividade e de custos salariais mantiveram-se
quase inalterados nas duas últimas décadas, com a
excepção da Inglaterra, onde os custos salariais foram
reduzidos de 40% desde 1980. Em seu silêncio, estes dados
dizem três coisas: a aproximação ao rendimento
médio europeu deu-se basicamente por acção
dos fundos estruturais e de coesão; estes fundos não
foram usados para obter ganhos de produtividade; os erros principais
foram cometidos durante o primeiro e mais longo período de
governo no interior da UE, ou seja, durante o cavaquismo. A batalha
da produtividade foi aí perdida porque se mutilou o potencial
científico-técnico das universidades públicas,
submetendo-as à pilhagem do comércio selvagem do ensino
superior e da falsa formação profissional, porque
o lobby do betão actuou sem concorrência e porque
o sistema judicial foi ineficaz ante a corrupção.
O segundo silêncio
é o do êxito de algumas políticas sectoriais
dos governos socialistas dos últimos seis anos que, a julgar
pelos anúncios vindos a público, virão a ser
postas em causa pela direita se esta ganhar as próximas eleições.
Entre esses êxitos destaco a reforma da segurança social
e o rendimento mínimo garantido (apesar dos seus limites);
a política científica e tecnológica; a política
cultural do Ministro Manuel Maria Carrilho; desde 1999, a política
da justiça; e, já este ano, a política da reforma
fiscal. Para além destas, há a referir uma política
de concertação na área laboral que tornou possível
dois acordos (sobre emprego e formação profissional
e sobre condições de trabalho, higiene e segurança)
assinados por todos os parceiros sociais, o que não sucedia
há onze anos. E, por não ser menor, deve ainda ser
mencionada a tentativa de pôr fim à situação
vergonhosa dos acidentes de trabalho, até agora um monopólio
das seguradoras privadas, criando um sistema público paralelo
no âmbito da Segurança Social. Estas políticas
possibilitaram alguns consensos, mas também criaram inimigos
poderosos que não hesitarão em usar as muitas armas
que têm para liquidar este activo político.
Nos recessos
das ondas da crise é possível ouvir o que verdadeiramente
está em causa. Paradoxalmente, os governantes e o partido
que os apoia parecem ser os mais surdos.
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