| A
clivagem entre esquerda e direita, suscitada por Génova,
deixa de fora as perguntas cruciais |
De
um modo geral, a análise dos acontecimentos de Génova
nos meios de comunicação social disse mais a respeito
das realidades políticas internas dos diferentes países
do que a respeito dos problemas do mundo evidenciados pela reunião
dos G-8. Portugal não fugiu à regra. A nosso respeito
revelou, entre outras coisas, que a clivagem entre esquerda e direita
continua viva e é atiçada, num momento de novidade
política, por aqueles que mais a questionam em geral. Esta
contradição faz com que os que dominam a análise
política tendam a deixar trair a sua fraqueza analítica
no modo como afirmam a sua força nos media.
Das
análises do que se passou em Génova revelou-se de
direita: quem centrou a sua análise na violência de
alguns grupos de manifestantes e silenciou os problemas substantivos
da sociedade global discutidos dentro e fora da reunião dos
G-8; quem estigmatizou essa violência e desvalorizou, tanto
a não-violência da esmagadora maioria dos manifestantes,
como a violência das forças policiais; quem salientou
a prioridade da ordem pública e viu a desordem como exterior
a esta e não como sua parte intrínseca; quem analisou
o que aconteceu à luz de uma história política
enviezada, feita exclusivamente das derrotas e inconsequências
da esquerda; quem deu prioridade ao valor da liberdade em detrimento
do da igualdade e desvalorizou as abissais desigualdades sociais
no mundo ou as valorizou como factor de progresso; quem, mesmo lamentando
a crescente clivagem entre ricos e pobres, se recusou a ver uma
relação sistémica ou de causa e efeito entre
riqueza e pobreza; finalmente, quem se recusou a reconhecer outro
princípio de legitimidade democrática senão
o que decorre das vitórias eleitorais dos governantes. Revelou-se
de esquerda quem manifestou posições contrárias
a estas.
Esta
clivagem entre esquerda e direita é salutar e revela que, apesar
de todas as mudanças, a luta continua a ser, em grande medida,
entre os partidos dos ricos e os partidos dos pobres, ainda que os
ricos votem às vezes em solidariedade para com os pobres e
os pobres votem às vezes como se os ricos fossem sempre solidários
para com eles. Mesmo assim, os termos desta clivagem ocultam os desafios
novos que o confronto entre globalizações ocorrido em
Génova faz, tanto à esquerda, como à direita.
A direita é interpelada a responder às seguintes perguntas.
É possível defender a soberania nacional sem proteccionismo?
Como legitimar nacionalmente o poder das classes dominantes quando
esse poder reside na subserviência com que servem interesses
estrangeiros? Sendo a produção de exclusão social
a condição necessária de um governo de direita
eficaz, como impedir que ela se torne na condição suficiente
para uma contestação vitoriosa por parte da esquerda?
Por sua vez, a esquerda é interpelada a responder ao seguinte.
Como criar legitimidade democrática para além das fronteiras
nacionais e para além da democracia representativa? Se nem
todos os poderes e desigualdades vigentes nas sociedades capitalistas
são capitalistas, como compatibilizar lutas locais, nacionais
e globais contra a opressão e impedir que os oprimidos numas
lutas não sejam os opressores noutras? Como manter a equação
entre o princípio da liberdade e o princípio da igualdade,
quando entre os dois se interpõe o princípio do direito
à diferença? |