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reconciliação entre agressores e vítimas
não impede que o sistema de agressão continue
a produzir vítimas |
Pese
embora a psicanálise, confessar pecados, pedir a absolvição
e cumprir a penitência continua a ser, na cultura ocidental,
o modo paradigmático de os indivíduos e grupos sociais
se reconciliarem consigo mesmos e com os outros. Este paradigma,
não sendo originário da Igreja Católica, adquiriu
com ela uma impregnação cultural hegemónica
que transcende hoje o religioso e se estende às zonas de
contacto da cultura ocidental com outras culturas. A Conferência
das Nações Unidas sobre o Racismo, que se está
realizar em Durban (África do Sul), é a manifestação
mais recente deste paradigma cultural e está presente, de
maneiras diferentes, tanto na questão do pecado da escravatura
como na da equiparação do sionismo ao racismo. Na
última década, as muitas Comissões de Verdade
e de Reconciliação que se constituíram nos
períodos pós-apartheid (África do Sul) e pós-ditadura
militares (América Latina) obedecem ao mesmo paradigma.
Este paradigma assenta em três pressupostos.
Em primeiro lugar, os grupos sociais em presença são
constituídos, um, em agressor, e o outro, em vítima
e é a vítima que preside à confissão
e concede a absolvição mediante uma penitência.
O segundo pressuposto é, pois, o da vitória da vítima.
Trata-se, contudo, de uma vitória muito parcial. Tal como
na confissão católica a penitência é
uma licença para pecar livremente, também aqui a vítima
pode impor uma penitência mas não tem poder para impedir
a reincidência no pecado. Este paradigma torna apenas possível
uma justiça "restaurativa" que permite a reconciliação
com o passado mas não impede que o futuro seja diferente
dele. Assim, as Comissões de Verdade possibilitaram o aperto
de mão, entre racistas e vítimas do racismo, entre
torturadores e presos políticos ou familiares de desaparecidos,
mas não puderam eliminar as condições económicas
e sociais responsáveis pelo sistema de injustiça estrutural
que continua a produzir o apartheid social na África do Sul
(onde 3% da população detém a quase totalidade
da terra fértil) e na América Latina submete a maioria
da população a formas cruéis de exclusão
social que, quando convivem com democracias de baixa intensidade,
não significam mais que a transformação do
fascismo político em fascismo social.
O terceiro pressuposto deste paradigma social cultural
é que a dicotomia entre agressor e vítima tem de ser
inequívoca e permanente. A transformação da
vítima em agressor conduz à paralisia do juízo.
O holocausto transformou merecidamente o povo judaico na vítima
mais vitoriosa do séc. XX. O Estado de Israel foi a penitência
com que a má consciência do mundo procurou perdoar-se
de um pecado hediondo. Só que tal penitência foi realizada
à custa da criação de uma outra vítima,
o povo palestiniano. Por falta do cumprimento pleno das decisões
da ONU, os israelitas transformaram-se num povo agressor: à
expulsão e morte dos palestinianos em 1948 seguiu-se uma
ocupação brutal a partir de 1967. Hoje o Estado de
Israel submete os palestinianos que vivem no seu interior (eufemisticamente
chamados "árabes israelitas") a formas degradantes
de apartheid, e os que vivem fora, à ocupação
e à expulsão. Devido em parte à força
do lobby sionista, a imagem do judeu-vítima impede
que se veja o judeu-agressor. É por isso que o holocausto
continua a perdoar tudo e o sionismo não é visto como
racismo.
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