| Nos
novos antagonismos, poucos semeiam ventos e muitos colhem tempestades |
No momento em que
escrevo estão ainda no ar duas incógnitas sem cujo
esclarecimento não será possível determinar
até que ponto o mundo mudou com o hediondo ataque terrorista
de 11 de Setembro, vinte e oito anos depois da queda violenta de
Salvador Allende, no Chile, com a intervenção activa
da CIA. Essas duas incógnitas são: Quem é o
inimigo? Como vão retaliar os EUA? Temo que a resposta à
segunda pergunta possa ocorrer antes da resposta à primeira.
A pressão para transformar os sentimentos de horror e de
luto em sentimentos de vingança é de tal maneira forte
que a decisão da retaliação pode vir a contentar-se
com provas duvidosas e incompletas.
Nestas condições
não é possível pensar no futuro senão
em termos dos factores que no passado recente têm vindo a
contribuir para a emergência ou agravamento de novos antagonismos
que, ao contrário do antagonismo que caracterizou a Guerra
Fria, assentam em brutais desequilíbrios de poder e na falta
ou impotência de instituições para os regular.
Distingo três desses antagonismos: os conflitos no Médio
Oriente e na ex-Jugoslávia; a guerra económica dos
países ricos contra os países pobres sob o nome de
globalização neoliberal; a transformação
recente dos EUA numa espécie de "Estado pária",
ao arrogar-se o direito de denunciar tratados internacionais para
consolidar a sua supremacia e defender-se do resto do mundo, concebido
como inimigo ou concorrente comercial, o que na tradição
da diplomacia americana não é uma distinção
significativa.
Em todos estes antagonismos,
a parte mais fraca sejam eles os palestinianos, os libaneses,
os iraquianos, os sérvios, os países pobres estrangulados
pela dívida externa ou, no caso do terceiro antagonismo,
até a UE e o Japão que assistem impotentes ao isolacionismo
dos EUA é sujeita a três processos de desumanização
que tornam impossível a negociação, o compromisso
e a institucionalização dos conflitos.
O primeiro processo
é a máquina tecnológica, seja ela militar ou
económica, que actua com tanta superioridade, violência
e precisão que o inimigo se torna invisível ou descartável.
O segundo processo é a máquina de propaganda que,
por um lado, magnifica o inimigo com o objectivo único de
magnificar a sua derrota e, por outro, o demoniza a ponto de o tornar
incapaz de qualquer motivação nobre. É este
processo que faz com que os telespectadores norte-americanos, ao
verem as imagens dos jovens palestinianos a atirar pedras aos tanques
israelitas, vejam nelas actos de agressão e não actos
de heroísmo.
O terceiro processo
são os critérios duplos a que os vencedores e os vencidos
estão sujeitos. Tanto Israel como o Iraque são violadores
de decisões do Conselho de Segurança da ONU, mas o
primeiro continua a receber a maior fatia da ajuda internacional
dos EUA, enquanto o segundo é bombardeado há dez anos.
Os vencedores perdem vidas, tanto mais preciosas quanto o novo lema
militar é "morte zero", enquanto os vencidos são
vítimas de "danos colaterais", os quais, no caso
do Iraque, podem ter atingido meio milhão de crianças.
Do mesmo modo, os países ricos impõem aos países
pobres o comércio livre, mas guardam para si o privilégio
de proteger as suas economias.
O problema destes
novos antagonismos é que os que semeiam ventos não
são os mesmos que colhem tempestades. Estes últimos
são quase sempre vítimas inocentes.
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