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11 de Setembro marca uma mudança profunda no sistema mundial
mas ainda não se sabe qual será o seu sentido |
Tal como as pessoas, as
sociedades raramente vivem em situações de equilíbrio. Os desequilíbrios
são o motor da transformação social. No entanto, quando se acumulam
para além de certo limite, põem as sociedades numa encruzilhada
donde é possível vislumbrar diferentes e contraditórias alternativas
de transformação, sem que seja possível prever qual delas virá a
concretizar-se. É esta a situação em que nos encontramos depois
dos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro. Eles significaram
uma acumulação extraordinária de desequilíbrios porque a magnitude
da sua novidade só é comparável à novidade da sua magnitude: pela
primeira vez, na história da modernidade ocidental, sempre capitalista
e cristã, e sucessivamente colonialista, imperialista e globalizadora,
grupos sociais que se arrogam representar povos e causas por ela
oprimidos, humilhados ou silenciados contra-atacam de forma violenta
e dramática no coração actual dessa modernidade e usando de forma
exímia os meios por ela disponibilizados. Nunca os índios das Américas
ou os colonizados da África alguma vez tentaram algo comparável.
Perante tamanho desequilíbrio,
mudanças talvez profundas estão já em curso mas, como estamos numa
encruzilhada, é impossível saber ao que conduzirão. A um futuro
melhor ou a um futuro pior? As mudanças que me parecem mais ambíguas
dizem respeito às relações entre o Estado e o mercado. Vivemos os
últimos vinte anos sob a hegemonia crescente do mercado, transformado
em elixir capaz de resolver todos os males da sociedade e sobretudo
os causados pelo Estado burocrático e intervencionista. Com as Torres
Gémeas caiu por terra este mito do mercado. Em primeiro lugar, foi
chocante a insensibilidade do mercado ao sofrimento da sociedade
americana e aos apelos à solidariedade: a bolsa de valores fechou
para não mostrar a sua face egoísta; as companhias aéreas apressaram-se
a lançar milhares de pessoas no desemprego; as seguradoras ameaçaram
deixar de honrar os seguros; o máximo que os directores das empresas
aceitaram foi o congelamento dos seus fabulosos salários durante
dois anos; algumas empresas que mais empregados perderam nas Torres
recusaram-se a apoiar os familiares das vítimas. Se alguém tinha
dúvidas que uma sociedade de mercado seria eticamente repugnante,
deixou de as ter. Em segundo lugar, o Estado readquiriu uma centralidade
que há muito julgava perdida. Por um lado, viu bater-lhe à porta
o antes omnipotente mercado, pedindo apoio financeiro extraordinário
apenas para repor o business as usual. Por exemplo, passou quase
despercebido que as companhias aéreas usaram a tragédia para repor
os seus lucros: despediram primeiro e depois é que pediram os subsídios.
Por outro lado, os cidadãos deram-se conta da vulnerabilidade ao
risco que lhes tinha sido criada pela desregulamentação da economia
e pela privatização da segurança nos aeroportos e exigiram uma maior
intervenção do Estado.
Em face disto, estamos
perante uma mudança do movimento do pêndulo, de novo na direcção
do Estado? O congelamento de contas, a quebra do sigilo bancário,
a supervisão de movimentos financeiros, o encerramento eventual
dos paraísos fiscais e bancos offshore significarão uma desaceleração
da globalização? Qual o impacto disto nos movimentos que lutam por
uma globalização alternativa? A maior intervenção do Estado trará
consigo a censura, o segredo de Estado, o estado de emergência,
em suma, o Estado-fortaleza, a perda das liberdades e o empobrecimento
da democracia? Estamos na encruzilhada.
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