| Em
tempo de complexidade o diálogo é difícil mas é a única arma
contra a violência |
No fim da semana passada
participei num colóquio sobre direitos humanos (dh) na Universidade
de Columbia em Nova Iorque. As tensões que dominaram o colóquio
são reveladoras do ambiente pesado que se vive hoje na comunidade
científica norteamericana (e suspeito que não apenas nela) quando
se trata de discutir temas que directa ou indirectamente se relacionam
com o 11 de Setembro. As discussões sobre dh, sobretudo quando nelas
participam cientistas sociais oriundos de vários continentes e de
diferentes culturas, sempre foram vivas e intensas, mas também serenas.
Desta vez, porém, a vivacidade descambou frequentemente para a agressividade
e o insulto e foram vários os momentos de impasse argumentativo.
Quando a dificuldade do diálogo acontece no seio de um grupo social
homogéneo em termos de classe social e formação académica é fácil
imaginar a dificuldade, se não mesmo a impossibilidade, de diálogo
em grupos sociais mais heterogéneos.
As principais tensões
foram as seguintes.
1. O que conta
como violação dos dh? O modo como tem sido construída a doutrina
dos dh faz com que muito sofrimento humano injusto não seja considerado
violação de dh. A fome e a doença agravadas em várias partes do
mundo pela globalização neoliberal são uma violação dos dh? Constitui
uma violação dos dh o facto de os países ricos, ao mesmo tempo que
impõem a liberalização do comércio aos países pobres, continuarem
a proteger as suas economias das exportações destes últimos, que,
segundo a ONU, significa um empobrecimento anual de 700 biliões
de dólares para o Terceiro Mundo? A morte de 500.000 crianças iraquianas,
também segundo dados da ONU, em consequência do embargo são uma
violação dos dh? A pena de morte - em 1999, a China, o Irão e os
EUA foram responsáveis por 80% das execuções - são uma violação
dos dh?
2. Quais os limites
para além dos quais a defesa contra o terrorismo pode transformar-se
numa violação dos dh? As mais de 1200 pessoas (quase todas árabes
e muçulmanas) que estiveram detidas durante algum tempo depois do
11 de Setembro terão sido vítimas de violação dos dh? Correm rumores
de tortura para obter informação. Uma dirigente do Partido dos Verdes
foi proibida de viajar de avião pelo facto de o seu partido se ter
manifestado contra os bombardeamentos do Afeganistão. As novas leis
anti-terroristas são tão vagas que podem bem ser usadas contra os
manifestantes anti-globalização ou contra os activistas de dh.
3. O que é o terrorismo
e como lidar com ele? Esta vai ser a grande questão dos próximos
tempos. Toda a luta armada é terrorismo? Os curdos, quando combatem
o Iraque, são combatentes da liberdade, quando combatem a Turquia,
são terroristas, apesar de as causas e os meios serem sempre os
mesmos. Onde começa o terrorismo? Começa nos laboratórios russos
e norteamericanos que durante anos desenvolveram a chamada "ameaça
perfeita", as armas biológicas capazes de destruir populações civis
inteiras sem as consequências da explosão nuclear? A partir dos
anos 70 e no contexto da guerra fria tornou-se popular no Pentágono
a doutrina do "equilíbrio do terror". Uma das suas facetas consistia
em apoiar grupos armados capazes de criar clima de terror entre
as populações com vista a forçar governos inimigos a uma negociação.
Foi assim que foram apoiados, entre outros, a Renamo, a Unita, os
Contra na Nicarágua e os taliban. Curiosamente, a doutrina impunha
aos governos a negociação com os "terroristas". Por que está agora
excluída a hipótese de negociação?
O encontro de Nova Iorque
foi uma metáfora do que nos espera: se desistirmos da lucidez e
do diálogo, deixaremos o caminho mais livre à violência.
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