| O
avanço do mercado educativo pode ser o golpe de misericórdia
sobre as universidades |
Escrevo de Guadalajara
onde estou a participar numa reunião do Conselho Latino-Americano
de Ciências Sociais em que estão representados os 130
centros de investigação mais importantes da região.
Duas décadas de neoliberalismo e os efeitos devastadores
que provocaram nas sociedades latino-americanas contribuíram
para que as ciências sociais do continente começassem
a ganhar mais distância em relação às
suas congéneres norte-americanas e procurassem reencontrar-se
com a sua tradição crítica e analítica,
renovando-a em função dos novos desafios. Esta reunião
foi testemunho disso. Mas foi também testemunho da dificuldade
desse reencontro num contexto universitário que se alterou
profundamente nas duas últimas décadas e precisamente
por influência das políticas neoliberais promovidas
pelo Banco Mundial.
Os
títulos dos livros recentes sobre as universidades são
elucidativos: Universidade em Ruínas, Universidades
na Penumbra, O Naufrágio da Universidade, A
Universidade Sitiada, etc. As causas de um diagnóstico
tão negativo têm a ver com a aplicação
das políticas do Banco Mundial as quais, aliás, têm
vindo a ter uma aplicação universal, inclusive no
nosso país. Consoante os contextos, estas políticas
são impostas como parte de pacotes financeiros ou são
adoptadas por elites locais, técnicos de educação
prestigiados e com poder político. Essas políticas
têm o seguinte perfil geral: promoção da privatização;
fim da gratuitidade das universidades públicas, substituída
por um sistema compensatório de bolsas de estudo; criação,
mediante esquemas de avaliação, da estratificação
entre universidades, com acessos desiguais a recursos e com valores
de mercado diferenciados atribuídos aos seus licenciados;
atenuação da responsabilidade financeira do Estado
pela universidade pública e o correspondente incentivo a
que esta gere receitas próprias.
Estas
políticas têm sido aplicadas de modo muito diferenciado.
Por exemplo, o Canadá defendeu a universidade pública
melhor que a Austrália, a Espanha, melhor que Portugal, o
México, melhor que o Brasil. Mas, em geral, o que está
em causa é a criação de um mercado educativo
e a constituição de um capitalismo universitário.
Três desenvolvimentos recentes são elucidativos. Primeiro,
a emergência de universidades globais, quase todas norte-americanas
e europeias, que vendem às universidades do Sul pacotes de
programas de pós-graduação, presenciais ou
à distância, mediante o sistema de franchising.
Neste sistema, o controle da qualidade e da certificação
dos títulos conferidos pela universidade local é feito
pela universidade global. Segundo, o desenvolvimento das universidades
de empresa, de que a General Motors foi pioneira em 1950 e de que
há hoje, só nos EUA, cerca de 1600, onde se destacam
a Universidade de Computadores da Dell ou a Universidade Sim Microsoft.
Segundo um analista do Financial Times: "os investidores
vêem o mercado da educação como uma nova fronteira
que mal começou a ser colonizada pelas eficiências
da internet". Este constitui o terceiro elemento da mercantilização
da universidade e da educação em geral. O Banco Mundial
pretende deixar de ser um banco de desenvolvimento para passar a
ser um banco de conhecimento e os documentos recentes da Organização
Mundial do Comércio sobre educação vão
no mesmo sentido. A ideia é ambiciosa e assenta na premissa
de que toda a actividade humana se organiza melhor se se organiza
como mercado. Vai envolver a criação de empresas de
serviços de professores, empresas de produção
de materiais e textos e de empresas de avaliação dos
alunos e de certificação. Vai envolver, sobretudo,
a promoção do acesso ao conhecimento através
de bancos de dados patenteados e, portanto, sujeitos ao pagamento
de royalties.
Com
este cenário em pano de fundo, como vai ser possível
manter a autonomia analítica e crítica da investigação
e do ensino universitários? Como escrevi um dia, se a universidade
não se repensar, a curto prazo só terá curto
prazo.
|