| Não
há viragem à direita; há apelo à
ética na política |
Ao
contrário da opinião comum dos comentadores e analistas
políticos, não penso que o desaire eleitoral do PS
se deva ao mau desempenho do governo socialista ou signifique uma
viragem do país à direita. O desempenho foi efectivamente
mau mas os resultados não atingiram ainda significativamente
a bolsa dos portugueses e enquanto tal não ocorrer não
haverá inflexões profundas nas lealdades eleitorais.
O facto de se agravar o problema orçamental, de Portugal
ser o país menos competitivo da Europa, de ser grande o desequilíbrio
entre investimento público e privado ou de Portugal ser,
na opinião de todos os relatórios mais recentes, o
país europeu com perspectivas mais sombrias a médio
prazo, nada disso, em meu entender, abalará profundamente
o espectro eleitoral português enquanto se mantiver muito
baixa a taxa de desemprego, a estabilidade da segurança social
for garantida (um dos poucos bons desempenhos do governo socialista)
e não houver cortes dramáticos na despesa pública.
Aliás, isto é sobretudo assim num país onde
as lealdades eleitorais dos cidadãos são muito mais
rígidas que as dos comentadores políticos. Talvez
por sermos um país com uma taxa de leitura de imprensa muito
baixa. Talvez porque a quem lê ou ouve repugnem os excessos
de linguagem tão frequentes nas análises. Talvez porque
quem tem de fazer contas à vida sabe que deve manter uma
distância saudável em relação a quem
faz contas às palavras para ganhar a vida. Talvez porque,
para os portugueses, ainda mal socializados no elitismo democrático,
a política seja sobretudo uma questão ética,
de honra, lealdade e coragem, de respeito pela palavra dada e pelos
compromissos assumidos, ou seja, de actuação segundo
critérios que queremos ver respeitados nos nossos círculos
mais próximos, o familiar ou o profissional.
Em
minha opinião, esta última conjectura explica melhor
que qualquer outra os resultados eleitorais do último domingo.
E se assim for, o comportamento eleitoral significou muito mais
a rejeição de pessoas e de actuações
políticas do que mudanças de opção política.
Neste caso, o que falhou a nível nacional não foi
o governo PS, mas a máquina partidária, aparelhística
até à asfixia, ensandecida num circuito fechado de
nepotismo e de revanchismo, para quem os cidadãos e os seus
sentimentos são uma presença descartável, se
não mesmo perigosa. Se isto foi verdade em geral, em nenhuma
cidade o foi mais do que em Coimbra. Depois de um começo
promissor, há doze anos, o governo municipal transformou-se
a pouco e pouco numa mistura corrosiva de mediocridade, arrogância,
isolamento, desistência e promiscuidade com interesses da
construção civil. Uma a uma foram quebradas as promessas
e frustradas as legítimas expectativas de uma cidade que
tem tanto um passado como um futuro a defender. Gradualmente, a
cidade foi esvaziada economicamente para ser entregue a uma especulação
imobiliária desenfreada, o seu património urbano sujeito
a grande degradação. A cidade, que nunca perdeu a
sua auto-estima, mobilizou-se para criar mecanismos de democracia
participativa, mas a oferta leal de participação chocou
com um muro de auto-suficiência autística. O último
mandato terminou com o pesadelo da cidade entregue à co-incineração
e o circo de desculpas malabaristas, mal disfarçando a palavra
desonrada. No último domingo, ante uma máquina partidária
que pensava que tudo isto podia ser feito impunemente, a cidade
disse: basta!
Analisadas
em detalhe, as eleições revelarão que houve
muito mais coimbras no país, embora nenhuma capaz de dar
uma lição tão eloquente.
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