| O
assassinato de dirigentes do PT é uma ameaça séria à democracia
na América Latina |
O
assassinato de Celso Daniel, prefeito de Santo André, uma cidade
da cintura industrial de São Paulo é um facto político verdadeiramente
perturbador. Conheci Celso Daniel em Agosto passado numa reunião
preparatória do Fórum das Autoridades Locais que se vai realizar
dentro de uma semana em Porto Alegre nos dias imediatamente anteriores
ao Fórum Social Mundial que se inicia a 31 de Janeiro. Impressionou-me
a sua capacidade de articulação política. Era um líder em ascensão
dentro do Partido dos Trabalhadores e coordenador da comissão do
programa de governo do candidato do PT às próximas eleições presidenciais,
Lula. Num espaço de poucos meses este é o quarto atentado a presidentes
da Câmara do PT, o segundo fatal. O outro foi o assassinato do prefeito
da Campinas. Entretanto a casa do prefeito da Catanduva foi metralhada
e uma bomba foi lançada na casa do prefeito de Embú-Guaçu. Vários
outros prefeitos, incluindo a prefeita de São Paulo, têm recebido
ameaças de morte. Por detrás desta violência está uma organização
misteriosa provavelmente de extrema direita. Como afirmou o Presidente
do PT no funeral de Celso Daniel, assistimos a atentados políticos
que indicam estar em curso um processo de eliminação de quadros
dirigentes do PT. Com que objectivos?
Aqui
reside a perturbação. As administrações municipais do PT têm protagonizado
as experiências de democracia participativa mais bem sucedidas no
Brasil. Trata-se de uma forma de gestão e de distribuição de recursos
que, através da participação activa e organizada dos munícipes,
em estreita articulação com os representantes eleitos no município,
torna possível políticas de inclusão social segundo critérios de
equidade, democraticamente definidos e aplicados. Num dos países
do mundo com mais desigualdade social, estas experiências de democracia
de alta intensidade constituem uma ruptura com o clientelismo e
a corrupção que, em geral, têm caracterizado o governo oligárquico
tradicional e não surpreende que sejam vistas por este como uma
ameaça. Talvez nunca se venha a saber quem está por detrás destes
atentados mas os efeitos destes começam a ser evidentes. Estamos
em ano de eleições presidenciais no Brasil e é sabido que o candidato
do PT pretende formular um programa de governo inspirado nos mesmos
princípios que têm presidido a estas experiências de democracia
participativa e de inclusão social. Quaisquer que sejam os seus
autores e motivações, estes atentados têm por efeito desmoralizar
a candidatura de Lula e intimidar quem pretende lutar por ela.
A
este adicionam-se dois outros factores de perturbação. A América
Latina atravessa um momento muito difícil. A Argentina está a arder,
a Colômbia e a Venezuela estão à beira da explosão. As soluções
democráticas semelhantes às propostas pelo PT foram no passado recente
bloqueadas pela violência, das ditaduras militares à eliminação
de cerca de 1500 dirigentes e militantes da União Patriótica na
"democrática" Colômbia. Por outro lado, o último atentado ocorre
a poucos dias da realização do Fórum Social Mundial, uma rede de
movimentos e organizações inspirados nas ideias da inclusão social
e da democracia participativa e que precisamente se realiza nessa
cidade internacionalmente conhecida pelo seu "orçamento participativo",
gerida, tal como o Estado em que se situa, pelo PT. Há certamente
forças interessadas em impedir que a voz democrática, pacífica e
solidária do Fórum se ouça, que as alternativas que ele veicula
sejam desacreditadas e que a sua capacidade organizativa não cresça.
Espero veementemente que não consigam os seus objectivos. Para isso
é decisivo que o Estado brasileiro tenha presente que a luta contra
o terrorismo ou começa aqui ou não começa.
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