| O
êxito do Fórum Social Mundial residiu no modo como soube interpretar
o contexto internacional e oferecer uma alternativa credível |
O segundo Fórum
Social Mundial (FSM) correspondeu inteiramente às expectativas.
Foi mais uma afirmação pujante do único facto político na cena internacional
neste limiar do século, o movimento contra a globalização neoliberal
e a favor de uma globalização alternativa, solidária, pautada pelo
respeito da dignidade humana. O contexto internacional dos últimos
meses que precederam o Fórum não parecia favorável e houve mesmo
quem manifestasse cepticismo acerca da oportunidade do Fórum. O
modo como os EUA utilizaram os trágicos acontecimentos do 11 de
Setembro para lançar uma guerra global potencialmente sem fim contra
um inimigo difuso pareceu relegar para segundo plano os interesses
meramente económicos da busca incessante de lucros através da ditadura
dos mercados contra a qual o povo de Porto Alegre se vinha manifestando.
No entanto, os cépticos não tinham razão. Não só mais do que duplicaram
os participantes e as organizações e movimentos presentes, como
foram muitos mais os temas tratados e as propostas formuladas.
Quais foram
as razões deste êxito? Distingo duas fundamentais. Em primeiro lugar,
o Fórum soube interpretar bem o contexto internacional; em segundo
lugar, soube buscar nessa interpretação a nova exigência e a nova
urgência dos seus objectivos. Interpretou a reemergência da guerra
e do militarismo, não como um facto novo e diferente da globalização
neoliberal, mas antes como um dos componentes desta, um componente
que adquiriu agora mais proeminência e visibilidade, conferindo
uma nova complexidade à dominação mundial do capitalismo global.
Confrontados com a debilidade e o declínio crescentes da sua economia,
inseguros quanto a futuros acessos a fontes de energia, temerosos
da concorrência potencial de uma nova moeda forte, o euro, os EUA
lançaram mão de um recurso, a guerra e o militarismo, onde detêm
total supremacia, com o objectivo de atenuar ou compensar as suas
debilidades ou incertezas. O que o neoliberalismo deixou de poder
fazer exclusivamente através dos mercados passou a pretender fazê-lo
com a guerra.Esta interpretação por parte do Fórum exigiu que este
desse uma resposta à altura da nova complexidade da cena internacional.
E assim sucedeu. A resposta foi dada a dois níveis. Num primeiro
nível, o Fórum procurou dar resposta às novas problemáticas e exigências
debruçando-se sobre temas que anteriormente não tinham sido abordados,
nomeadamente os temas da guerra e da paz e o tema da segurança colectiva
contra a violência estatal ou não estatal. Ante uma globalização
neoliberal que se procura reforçar sob a forma de uma cruzada militar
contra o terrorismo, o FSM juntou às suas reivindicações económicas
e sociais a reivindicação da paz e de uma concepção de segurança
colectiva assente no diálogo e na diminuição das desigualdades sociais
como condição para que a segurança de uns não seja obtida à custa
da insegurança dos outros. No momento em que os EUA procuram justificar
com a cruzada anti-terrorista - como antes fizeram com a cruzada
anti-comunista e a cruzada anti-droga - a imposição da sua vontade
a todos os países do mundo e nomeadamente aos seus rivais económicos,
a União Europeia e o Japão, e parecem fazê-lo com pleno êxito, o
encontro de Porto Alegre afirmou-se como o único acontecimento político
internacional deste período realmente autónomo em relação às imposições
norte-americanas. Ao contrário, o FSM orientou-se apenas pelos seus
objectivos próprios e alimentou-se com a energia de todos os que
vêem nesses objectivos o único modo de sair de um mundo injusto,
destruidor da vida e da natureza, movido, não pelas necessidades
da humanidade, mas pela avareza daqueles que se pretendem apropriar
dela.
Mas o FSM
respondeu ao contexto internacional com um segundo nível de respostas.
Teve uma preocupação consistente em complementar o discurso da denúncia
com a apresentação de propostas. O segundo Fórum foi assim muito
mais conclusivo e propositivo. Redigiram-se centenas de documentos
com milhares de propostas sectoriais para serem transformadas em
temas de lutas políticas nos diferentes países e globalmente. E
esta preocupação começou desde logo com a necessidade de defender
a legitimidade dessas lutas contra um contexto securitário e militarista
e a tentação autoritária que dele emerge no sentido de criminalizar
as manifestações de protesto contra a globalização neoliberal. Assim
as centenas de cidades que participaram no Fórum Mundial das Autoridades
Locais, que se reuniu nos dias imediatamente anteriores ao FSM,
comprometeram-se a defender o direito às manifestações. Contra um
clima de guerra, as propostas afirmam o valor supremo da paz. Contra
a concorrência desenfreada pelo acesso aos recursos naturais e pela
privatização daqueles que até agora foram livres e públicos, o FSM
aborda pela primeira vez a questão da água e propõe que ela seja
considerada património mundial da humanidade.
O êxito do
FSM esteve muito para além do que nele se decidiu. Esteve na afirmação
e consolidação desta gigantesca rede de movimentos sociais e de
organizações, uma rede que não se deixou intimidar pelos acontecimentos
recentes e que, pelo contrário, colheu deles a urgência para prosseguir
e ampliar a pressão organizada e pacífica contra aqueles que pretendem
transformar o mundo num gigantesco condomínio fechado.
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