| Nestas
eleições há uma divisão entre esquerda e direita como só houve
no início dos anos oitenta |
Não vai ser
fácil aos portugueses esquecer António Guterres. Os portugueses
conservadores não esquecerão a oportunidade dourada que ele deu
à direita de conquistar o poder sem o merecer. Se ela falhar essa
oportunidade dificilmente terá outra nos próximos tempos. Por sua
vez, os portugueses progressistas não esquecerão que, com a sua
atitude impensada, António Guterres pôs em causa a possibilidade
de se construir um país moderno sem se agravarem as desigualdades
sociais, sem se contrapor desenvolvimento a solidariedade. Se a
esquerda for derrotada nestas eleições terá muitas dificuldades
em voltar ao poder e quando voltar terá para governar um país muito
diferente do que é hoje. Em ambos os casos, ninguém se lembrará
do projecto político de António Guterres. Os portugueses progressistas
lembrarão os seus bons ministros: Mariano Gago, Ferro Rodrigues,
António Costa, João Cravinho, Sousa Franco, Manuel Maria Carrilho,
Maria João Rodrigues e Paulo Pedroso. O não ter sido possível fazer
convergir tanto talento num projecto transformador é uma das páginas
negras da nossa democracia.
O "acidente" Guterres teve um efeito surpreendente:
polarizou a distinção entre esquerda e direita e, com isso, deu
aos portugueses uma razão forte para votarem nas eleições e para
votarem segundo as suas convicções. O que está em aberto nestas
eleições é a questão de saber se falhou ou não entre nós a possibilidade
de um modelo de desenvolvimento social democrático, um modelo que
combine competitividade com protecção social, crescimento económico
com diminuição das desigualdades sociais. Pese embora a retórica
dos discursos eleitorais e o próprio nome do partido, a vitória
do PSD significará o abandono de tal modelo e a sua substituição
por um modelo de desenvolvimento neoliberal assente na ideia de
que o crescimento económico não é possível sem o agravamento das
desigualdades. Dessa ideia decorre o desagravamento fiscal dos mais
ricos e das empresas, a privatização da produção de bens públicos
como a saúde e a segurança social, a oneração das classes médias
e a desaceleração da protecção social. Em todos estes domínios,
o que está em causa são opções políticas e não necessidades técnicas.
O exemplo mais flagrante é a segurança social. As propostas do PSD
põem em causa um dos melhores desempenhos do governo socialista,
um sistema público de segurança social, financeiramente viável,
consensualizado entre os parceiros sociais e com capacidade para
gerar aumentos graduais das pensões mais baixas.
Para os portugueses
de esquerda nunca foi tão importante votar segundo as convicções.
E é tanto mais importante quanto é difícil. É desalentador que o
PS tenha optado por um programa timorato numa altura em que era
preciso sublinhar a divisão das águas e, sobretudo, que pareça ter
interiorizado a derrota como se o mal que isso poderia trazer ao
país tivesse a sobrepujante vantagem de clarificar internamente
o partido. É desalentador que o PCP continue a ver no PS o seu maior
inimigo e marginalize os seus melhores em nome de uma ortodoxia
que só pode levar o partido ao desastre. Para que o desalento não
seja total, resta-nos o Bloco de Esquerda por onde passa hoje a
nova esquerda portuguesa, com uma concepção ética da política, um
projecto político coerente, livre dos fantasmas do passado, a pensar
numa sociedade aberta e solidária, num Estado eficiente mas não
asfixiante, num espaço público onde os cidadãos contem mais que
os lobbies. Entre alentos e desalentos, a verdade é que os
portugueses progressistas têm à sua escolha o PS, o PCP e o BE.
O importante é que escolham.
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