| Os
ataques à ideia de serviço público visam ampliar a mercantilização
das relações sociais |
Vão
maus os tempos para a ideia de serviço público no nosso país. O
governo e os meios de comunicação social que lhe servem de caixa
de ressonância têm vindo a abrir várias frentes de ataque ao serviço
público. Duas delas são particularmente virulentas: o «inchaço»
e a ineficiência da função pública e o «inchaço» e o despesismo
da RTP. São ataques distintos mas a ambos subjaz o mesmo pressuposto,
o de que o mercado é superior ao Estado, sendo por isso necessário
que os critérios de mercado funcionem como disciplinadores da acção
do Estado. É de prever que estes ataques se acentuem nos próximos
tempos, que abranjam mais áreas e que o seu pressuposto apareça
cada vez mais à luz do dia convertido em novo senso comum. A razão
deste movimento é simples. Estão a iniciar-se na Organização Mundial
do Comércio os trabalhos referentes ao próximo round
de liberalização do comércio: depois da liberalização dos produtos,
será a liberalização dos serviços. Muitos desses serviços, que são
hoje «serviços públicos» têm potencialidades mercantis quase infinitas.
Para que tal aconteça sem grande perturbação social é necessário
que a ideia de serviço público vá sendo desmoralizada. A estratégias
mais eficaz consiste em partir de generalizações falsas, tomar medidas
cegas e justificá-las com argumentos populistas (contra o «esbanjamento
do dinheiro dos contribuintes»). É o que está a acontecer entre
nós.
Para
ser eficaz, esta política tem de fazer omissões escandalosas do
ponto de vista dos direitos de cidadania e dos valores democráticos.
No caso da função pública, tem de omitir três factos: 1. a integração
nos quadros da função pública foi muitas vezes o resultado do cumprimento
de leis que o Estado durante muito tempo impôs a outros empregadores
mas que ele próprio se dispensou de cumprir. 2. nos últimos seis
anos o nosso país deu passos importantes na consolidação de um Estado-Providência
e foram as novas tarefas que exigiram outras qualificações para
as quais os «velhos» funcionários não estavam preparados. 3. justificadas
como actuando contra os «excessos», as medidas omitem o impacto
negativo que os despedimentos terão na qualidade de vida dos cidadãos
(para já não falar na dos funcionários despedidos).
No
que respeita à RTP, as principais omissões são as seguintes: 1.
durante o cavaquismo a RTP foi sujeita a uma pilhagem sistemática
feita com o objectivo de favorecer a televisão privada. A estratégia
visou colocar a TV pública num dilema mortal: se é forte, faz concorrência
desleal à TV privada; se é fraca, precisa de recorrer aos privados
para se «fortalecer».2. A identidade de um serviço público de televisão
é o espelho da identidade do país. A importância que se atribui
à TV pública é o espelho da importância que se atribui: à informação
equilibrada, plural e autónoma; às especificidades culturais, sociais
e regionais do país; à promoção da inovação audiovisual para além
do que o mercado garante; à formação da coesão nacional, não nacionalista
mas também não desarmada ante agentes económicos e culturais sem
qualquer lealdade ao país; à resposta democrática à diversidade
das exigências dos públicos independentemente da sua capacidade
de consumo dos bens objecto de publicidade; à vontade política de
promover o espectador-cidadão em detrimento do espectador-consumidor.
3. Dado o impacto da televisão no nosso país quem ataca o serviço
público de televisão fá-lo para promover uma identidade nacional
inerme, uma sociedade mercantil excludente, uma cultura política
autoritária. |