| A luta pelo serviço
público de televisão é uma luta pela democracia |
A qualidade da democracia testa-se nos momentos de crise. São
momentos de crise todos aqueles em que as regras de jogo e as instituições
democráticas são pressionadas a produzir resultados
semelhantes aos que seria possível produzir se tais regras
e instituições não existissem. O modo como
estas regras e instituições reagem perante tais pressões
críticas determinam a qualidade e o grau de consolidação
da democracia. A política do Governo sobre o serviço
público de televisão (SPT) tem vindo a desdobrar-se
numa série de pressões críticas susceptíveis
de criar uma situação de crise. A primeira pressão
crítica consistiu no modo como investiu contra o SPT. Dado
que, no contexto europeu, um SPT forte e com presença efectiva
no campo audiovisual é uma das instituições
quasi-políticas do sistema democrático, a actuação
do novo governo só faria sentido (e seria certamente bem
vinda) se atacasse as fraquezas do nosso actual SPT e tomasse medidas
para o fortalecer. Em vez disso, o governo utilizou as fraquezas
do actual SPT para investir contra o próprio princípio
do SPT. Quem melhor entendeu o sentido desta política foram
os ideólogos neoliberais e o mercado, os dois pilares da
luta contra a especificidade europeia no domínio do audiovisual.
Os primeiros produziram de imediato a teoria pronto-a-vestir da
possibilidade e até da excelência do SPT prestado por
agentes privados, enquanto o mercado reagiu, fazendo subir as acções
das empresas privadas de televisão.
A segunda pressão crítica consistiu na utilização
da maioria parlamentar para fazer promulgar legislação
"retroactiva" susceptível de neutralizar uma
decisão do Conselho de Opinião contrária à
política do governo. No momento em que escrevo não
é ainda conhecida a decisão do Tribunal Constitucional
a respeito das alterações à Lei da Televisão.
Se ela for no sentido da inconstitucionalidade podemos dizer que
as regras e as instituições democráticas aguentaram
bem esta pressão e deram testemunho da consolidação
da nossa democracia. Resta saber, no entanto, como reagirão
se o governo persistir na sua política à beira do
abismo e insistir em novas pressões críticas. Uma,
no entanto, lhes parece vedada – o que é um bom augúrio
para a nossa democracia – aquela a que recorreu o Presidente
da Argentina, Carlos Menem, em 1991. Inconformado com uma decisão
do Supremo Tribunal contrária à sua política,
apressou-se a aprovar uma lei que permitia aumentar o número
de juizes nomeados pelo Presidente. Preencheu as vagas com pessoas
da sua confiança e logo depois o Tribunal revogou a decisão
anterior.
Mas o governo tem ao seu dispor outras pressões críticas.
Uma delas é a declaração da falência
da RTP na esperança de que, ante o caos produzido no SPT,
as resistências finalmente se dissipem. Numa sociedade que
padece da síndrome do oito-oitentismo não admira que
das indecisões do governo anterior se pretenda passar a um
decisionismo cego do qual a nossa democracia não saia ilesa.
A minha suspeita é, pois, que as regras e as instituições
democráticas vão ser sujeitas a novas pressões.
Assim sendo, a defesa de um forte e actuante SPT transforma-se numa
luta pela defesa da democracia em geral. Nela devem participar todos
os movimentos sociais e organizações da sociedade
civil cujos êxitos sectoriais dependem da qualidade da nossa
democracia, sejam eles sindicatos, associações cívicas
e de defesa dos direitos humanos, associações culturais
e de desenvolvimento local, movimentos ecológicos e feministas
e organizações não governamentais de solidariedade
internacional.
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