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Europa dos movimentos sociais reclama o património esquecido
pelos governantes |
Na próxima semana realiza-se em Florença o primeiro Fórum Social Europeu
(FSE). A realização deste fórum, como a de outros fóruns regionais
(africano, asiático, das Américas), foi proposta no segundo Fórum
Social Mundial (FSM), que se realizou em Porto Alegre em Fevereiro
passado, com o duplo objectivo de aprofundar o conhecimento do FSM
e da sua carta de princípios nas diferentes regiões do mundo e de
propiciar aos movimentos sociais, mobilizados em redor dos problemas
específicos de cada região, uma contribuição mais sistemática para
as temáticas a serem discutidas no terceiro FSM que se realiza em
Porto Alegre no fim de Janeiro próximo. O FSE realiza-se
num momento internacional, em geral, sombrio mas contraditório.
O seu lado negro, de longe dominante, é a nova onda militarista
que ameaça pôr o mundo a ferro e fogo. É uma estratégia compensatória
desenhada pela Administração Bush para alimentar, com a "economia
de guerra", a hegemonia do capitalismo neoliberal global no momento
em que os instrumentos convencionais da "economia de paz" não parecem
ser suficientes para relançar a economia mundial. Para esta estratégia,
é fundamental reduzir as reivindicações de justiça social dos grupos
sociais oprimidos à condição de motivações e práticas potencialmente
terroristas, e fazer com que esta lógica seja adoptada por líderes-satélites,
sejam eles Sharon ou Putin. Em seu lado claro, o mundo revê-se esta
semana na brilhante vitória de Lula no Brasil e, com ela, na esperança
de que a democracia seja mais forte que o neoliberalismo.
O FSE é um fórum de cidadãos e de movimentos sociais
que visa responsabilizar os governos europeus pelo "esquecimento"
clamoroso de dois pilares do património comum europeu dos últimos
cinquenta anos. O primeiro pilar é a tensão permanente entre democracia
e capitalismo que permitiu combinar, contrariamente ao modelo norte-americano,
competitividade com altos níveis de protecção social, e consolidar
um modelo de democracia com alguma capacidade redistributiva, capaz
de garantir os direitos económicos e sociais dos trabalhadores e das
classes médias através da promoção de interacções não mercantis entre
os cidadãos (sistemas públicos de segurança social, saúde, educação,
transporte). Este modelo pecou por ser tímido mas, em vez de ser aprofundado,
tem vindo a ser esquecido nas duas últimas décadas. De repente, tornou-se
"evidente" que só o modelo de capitalismo norte-americano era exportável
mundialmente e que, portanto, o modelo europeu nem sequer na Europa
seria sustentável. É contra esta evidência e contra este esquecimento
que se deve entender a vitória de Lula. Lula ganhou o coração dos
brasileiros com um programa político assente no modelo europeu.
O segundo "esquecimento" da Europa dos Estados diz respeito
à promoção da paz. A Europa é, nos tempos modernos, o continente
mais violento, não só pela violência que infligiu a si mesma - desde
a guerra dos trinta anos (1618-1648), em que morreu metade da população
da Alemanha de então, até às duas guerras mundiais - como pela violência
que infligiu aos povos que estiveram sob o seu jugo colonial. Talvez,
por isso, no últimos cinquenta anos a Europa foi promotora de soluções
pacíficas e defensora do direito internacional. Este património
está a ser activamente esquecido pelo modo como a Europa se verga
aos desígnios belicistas de Washington.
O FSE pretende que os cidadãos e os movimentos sociais
recuperem este duplo património esquecido pela classe política. É
por isso que os grandes temas a serem debatidos são o neoliberalismo,
a paz, os direitos dos cidadãos e o aprofundamento da democracia. |