| Milhares
de jovens devolveram a esperança à Europa
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O primeiro Fórum Social Europeu que se realizou em Florença na
semana passada foi um acontecimento político e cultural da maior
importância, cujo extraordinário êxito merece reflexão. Durante
três dias, mais de 35.000 pessoas, na esmagadora maioria jovens
vindos de todos os países europeus, discutiram temas que consideram
relevantes para o futuro da Europa e do mundo, e celebraram com
alegria a possibilidade de os discutirem em liberdade. Entre esses
temas são de salientar: a guerra e a luta pela paz, o futuro dos
direitos sociais enquanto património europeu, a União Europeia,
a participação dos cidadãos nas instituições europeias e a democracia
participativa, a globalização neoliberal, a exclusão social e a
destruição ecológica, o respeito pela diversidade cultural dos povos
europeus e dos povos não europeus que trabalham na Europa. Os trabalhos
do Fórum concluíram com uma marcha sob o lema "Por uma Europa de
paz e de direitos" que reuniu mais de 500.000 pessoas vindas de
toda a Europa, uma manifestação que decorreu sem qualquer incidente.
Este acontecimento notável merece a reflexão de todos e sobretudo
da classe política, dos educadores e dos trabalhadores da comunicação
social. Começo por estes últimos. Uma parte significativa da comunicação
social europeia procurou demonizar o Fórum, criminalizá-lo por antecipação,
ou, no melhor dos casos, ignorá-lo. O fantasma de Génova foi usado
até à exaustão e, sobretudo na Itália, a violência da intimidação
chegou a ser patética. Dado que este Fórum foi um fórum pela paz,
pelo modelo social europeu e pela justiça social e cultural na Europa
e no mundo, a atitude de uma boa parte da comunicação social só
pode ter uma explicação. Controlada por grandes grupos económicos
ou refém de governos conservadores que defendem os interesses desses
grupos, essa comunicação social está apostada na rendição da Europa
ao modelo de capitalismo norte-americano e aos desígnios belicistas
que são hoje essenciais para garantir a sua consolidação global.
Para mim, educador há quase quarenta anos, este Fórum foi uma experiência
única. Nunca tinha visto salas repletas de jovens afanosamente tomando
nota de tudo o que ouviam. Não estavam ali para aplaudir, estavam
ali para aprender. Não pude deixar de me perguntar sobre o que as
nossas escolas e as nossas universidades estão a deixar de ensinar
aos nossos jovens e que eles buscam avidamente aprender nas ocasiões
que se lhes oferecem. À medida que transformamos a educação numa
mercadoria, deixamos de ensinar aos jovens o que não tem preço de
mercado: os valores da cidadania, da democracia, da solidariedade
e da justiça social. A esperança está em que os jovens ainda não
esqueceram a falta do que não aprendem na escola.
Por
último, a classe política europeia deve a este Fórum uma reflexão
desapaixonada sobre a medíocre trivialização a que vem sujeitando
a democracia e a perigosa crise de representatividade em que está
imersa. Como é possível que os temas que mobilizam a reflexão e
o interesse de tantos milhares de jovens, que são o futuro da Europa,
não tenham qualquer tradução nos debates que mobilizam uma boa parte
da classe política, afogada no atoleiro da corrupção e dos conflitos
de interesses e obcecada por protagonismos pessoais? Como é possível
que a emergente e vibrante energia de uma sociedade civil organizada
em movimentos sociais e organizações não governamentais continue
a ver negada a sua aspiração a uma democracia participativa com
a qual não quer negar e antes quer fortalecer a democracia representativa?
A esperança da Europa está em que o princípio da esperança tem mais
força do que aqueles que lhe decretam o fim.
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