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Universidade de Coimbra está num momento de viragem |
A leitura, mesmo superficial, dos muitos livros que em tempos recentes
se têm vindo a publicar em diferentes países sobre a situação das
universidades públicas mostra a recorrência dos seguintes temas:
asfixia financeira, desresponsabilização do Estado sob o pretexto
da autonomia, concorrência desleal das universidades privadas, generalização
de critérios empresariais que transformam a educação em mercadoria
e perda de influência na formação das elites. Quanto maior foi a
proeminência passada da universidade na prestação do serviço público,
maior é o sentimento de crise. As melhores universidades procuram
transformar este sentimento de crise em energia de renovação. A
Universidade de Coimbra (UC) é a instituição pública portuguesa
que mais relevantes serviços prestou ao país durante mais tempo.
Ao longo de séculos, foi um protagonista decisivo das grandezas
e misérias da nossa história. Continua a ser hoje uma das instituições
portuguesas mais conhecidas internacionalmente. Não admira que a
crise do serviço público universitário a tenha atingido com particular
virulência.
Com a desastrada demissão do último reitor, a UC bateu no fundo
e, como grande universidade que é, sentiu nesse choque que o momento
da viragem e da renovação tinha chegado. Vejamos os caminhos e,
depois, as condições da renovação. Por mais urgente que seja a questão
do financiamento e saber como a universidade vai sobreviver no próximo
ano, a questão decisiva é a formulação de um pensamento estratégico
que defina o que a UC quer ser daqui a vinte anos, num contexto
de decréscimo de população estudantil portuguesa, de crescente mobilização
estudantil e de professores no espaço europeu, de crescente internacionalização
da investigação e da busca de excelência. A estratégia pensa-se
sempre a partir do melhor que se tem. A vantagem comparada da UC
é o seu capital simbólico, o seu prestígio internacional. Não há
conflito entre humanidades e tecnologias; há, isso sim, conflito
entre mediocridade e excelência. No caso específico da UC, há que
identificar criteriosamente as áreas científicas em que a excelência
está já consolidada. São elas que estão em melhores condições para
valorizar a curto prazo o capital simbólico. A prioridade que lhes
for dada deverá ser orientada para abrir o espaço aos novos saberes
tecnológicos, sociais e artísticos e às novas metodologias de ensino
e de extensão. Pela mesma razão, a força da UC na Europa constroi-se
com a força que tiver na América Latina (sobretudo Brasil) e África.
É viável que, daqui a 10 anos, 75% dos estudantes de mestrado e
doutoramento venham do Brasil e dos PALOPs e que seja aqui que,
privilegiadamente, os estudantes e professores europeus encontrem
os seus colegas de outros continentes.
A médio prazo, as condições de renovação dizem respeito ao sistema
de financiamento, à reforma institucional e à reforma eleitoral. A
valorização do capital da UC exige que a reitoria seja o navio-chefe
e não o ferryboat errante entre um arquipélago de Faculdades-ilhas
autónomas. Exige que os serviços dependentes da Reitoria, tão importantes
na ligação à comunidade, vejam devolvida a sua dignidade. Exige que
a comunidade seja tanto Coimbra, como o Maputo ou Porto Alegre. A
curto prazo, a renovação depende exclusivamente do bom senso dos membros
do colégio eleitoral por duas razões infelizes. Primeiro, 52% do colégio
é constituído por funcionários e estudantes. Os mais responsáveis
pela renovação estratégica estão em minoria. Segundo, nos últimos
vinte anos, a eleição dos reitores foi dominada por tácticas partidárias
e critérios corporativos imediatistas, com total menosprezo
pela valorização da universidade a médio prazo. Só haverá renovação
se o colégio se guiar pela discussão estratégica e não pelo cálculo
partidário ou corporativo. |