| Nao
há uma política anti-corrupção |
Portugal está afogado numa maré negra de corrupção. Depois dos
fundos europeus, das obras públicas e do futebol seguem-se as forças
de segurança e a pedofilia. Para o cidadão comum a corrupção tem
um significado amplo: é todo o abuso de autoridade (pública ou privada)
para benefício próprio. Neste sentido se fala de corrupção de menores.
Há diferenças importantes entre a corrupção económica e a corrupção
de menores. Têm, contudo, em comum o envolverem abusos de autoridade
e serem manifestações do mesmo fenómeno geral de degradação ética
da vida pública e privada. Como se chegou a isto? Num país que ainda
vive o mito da austeridade da vida pública e privada que herdou
do Estado Novo, os conservadores atribuem a maré de corrupção ao
"excesso de democracia", enquanto os progressistas vêem nela o autoritarismo
atávico dos detentores de poder.
O mais importante é saber como sair disto. Centro-me hoje na corrupção
económica. Antes de tudo, é preciso combater a ideia de que corrupção
é uma fatalidade resultante do aumento de outros tipos de criminalidade
que criam oportunidades incontroláveis para a corrupção. Alguns
tipos de criminalidade criam naturalmente novas interfaces entre
potenciais corruptores e potenciais corrompidos. Mas essas interfaces
só se transformam em práticas corruptivas porque os primeiros vêem
a sua oportunidade na consabida disponibilidade dos segundos. Se
tal disponibilidade não existir, os objectivos dos potenciais corruptores
têm de ser canalizados para outros meios, como, por exemplo, contratar
bons advogados ou obter pareceres de professores das Faculdades
de Direito.
Quando a corrupção se transforma numa prática sistemática em que
passa a assentar, em boa parte, a reprodução do sistema político
e económico, a luta eficaz contra ela só pode ocorrer em duas situações.
A primeira é quando a corrupção é tão generalizada que mina a coerência
básica do sistema político. Nessa situação, a própria corrupção
cria micro-estados dentro do Estado que se digladiam entre si (entre
diferentes ministérios, forças de polícia, serviços de fiscalização
e regulação). É então que começam as denúncias na comunicação social
e o sistema de investigação criminal e judicial têm a oportunidade
de actuar com autonomia. Foi o que aconteceu na Itália. A segunda
situação ocorre quando a parte sã do sistema é suficientemente forte
para arriscar a sua própria sobrevivência e estar preparada para
aguentar as consequências decorrentes da amputação da parte gangrenada
do sistema. Neste caso, o factor mais importante na luta contra
a corrupção é a vontade política. Veja-se o caso da corrupção massiva
no manejo dos fundos estruturais e de coesão. Apesar de tal facto
ter impossibilitado a restruturação social e económica que nos livraria
do medíocre futuro que agora nos espera na UE, o sistema de investigação
e judicial foi lamentavelmente inoperante porque careceu de vontade
política. Factos recentes da nossa sociedade - combate à corrupção
miúda e neutralização das instituições de investigação quando tomam
uma atitude mais activa e agressiva no combate à grande corrupção
- mostram que Portugal não está, neste momento, nem na primeira
nem na segunda situação e, enquanto assim for, não haverá combate
eficaz à corrupção.
Quando houver vontade
política para esse combate ele assentará no seguinte: restauração
da ética de serviço público que a vertigem neoliberal deslegitimou
ao transformar as instituições em agências de produção de serviços-mercadorias
cuja distribuição está sujeita à lógica da oferta e da procura;
formação de investigadores, polícias e magistrados orientada por
uma cultura técnico-democrática e não técnico- burocrática; remuneração
adequada dos funcionários públicos; punição exemplar da pequena
e da grande corrupção.
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