| O
Natal amargo das vítimas da avareza |
O tempo do Natal é um tempo propício às manifestações de bons sentimentos
e bons propósitos. Nas relações entre países ricos e países pobres
tais manifestações são, em geral, hipócritas porque estão em contradição
com a prática. No caso que passo a relatar a hipocrisia atinge o
paroxismo. Denuncio-o nesta época como um presente cívico à nossa
(má) consciência. Os países pobres estão a braços com um gravíssimo
problema de saúde pública. São conhecidos os dados do HIV/Sida.
Há 42 milhões de pessoas infectadas no mundo, dos quais 30 milhões
em África. Mas os problemas são realmente graves no caso da tuberculose,
da malária e mesmo das doenças não infecto-contagiosas. Segundo
a Organização Mundial de Saúde, em 2020, estas últimas (doenças
cardíacas, cancro e diabetes) serão 60% das causas de morte em África.
A maior dificuldade que estes países enfrentam para resolver este
problema reside no elevado preço dos medicamentos em razão dos direitos
de patentes sobre eles detidos pelas grandes empresas farmacêuticas
dos países ricos.
Devido a forte pressão internacional,
a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC),
realizada em Doha (Quatar) em Novembro do ano passado, adoptou uma
declaração histórica que estabelece a prioridade da protecção da
saúde pública em relação à protecção dos direitos de patentes. Apesar
das suas ambiguidades, esta declaração abriu o caminho para os países
pobres adquirirem medicamentos genéricos, a uma pequena fracção
dos medicamentos de marca em casos de emergência de saúde pública.
Enquanto a imprensa internacional cantava loas a esta manifestação
de solidariedade internacional, a poderosa indústria farmacêutica
começava a pressionar os seus governos (EUA, EU, Suíça e Japão)
no sentido de reduzir ao mínimo o impacto da declaração. Iniciou-se
então um processo de reinterpretação restritiva da declaração que
certamente ficará na história da diplomacia dos países ricos como
uma das suas páginas mais negras. Procurou-se reduzir os casos de
emergência de saúde pública à sida, tuberculose e malária ou no
máximo a pandemias infecto-contagiosas (que podem contaminar os
cidadãos dos países ricos) e, mesmos nesses casos, para os EUA pelo
menos a aquisição de genéricos só seria autorizada aos 49 países
mais pobres e não aos países em desenvolvimento, em geral. Considerou-se
que, afinal, a declaração só permitia ultrapassar os direitos das
patentes no caso de os países produzirem os genéricos, devendo ser
excluída a sua importação (o que punha todos os países africanos
fora do alcance da declaração). O Japão defendeu que a declaração
não se aplicava às vacinas, por não serem produtos farmacêuticos.
Pela mesma razão, defendeu-se que não estavam incluídos os meios
de diagnóstico (como os aparelhos de Raios X). A UE, através do
seu Comissário para o Comércio - contradição com resoluções do parlamento
europeu e dos parlamentos de vários países - esmerou-se na criação
de um complexo e estúpido colete de forças legal que retira aos
países pobres a decisão sobre emergências de saúde pública e a transfere
de facto para a OMC. Quando a pressão sobre os representantes nacionais
da OMC não pareceu dar resultado, foram feitas pressões directas
sobre os governos para, em troca de outras vantagens comerciais,
linharem as suas posições com a dos países ricos no domínio dos
direitos de propriedade intelectual. Em face disto, não admira que
a recente reunião da OMC em Genebra tenha terminado num impasse,
ficando adiada qualquer decisão para mais tarde. Entretanto, perdeu-se
um ano, um ano em que morreram de sida 3,1 milhões de pessoas das
quais 2,4 milhões em África. É esta a macabra prenda de Natal que
os países ricos dão aos países pobres.
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