| Não
peçam aos portugueses optimismo sem condições |
Na sua mensagem
de Ano Novo, o Presidente da República pediu aos portugueses
para serem optimistas. Infelizmente não há razões
para optimismo. Só há razões para optimismo
quando as expectativas futuras são positivas em relação
às experiências do presente. Ora, para a esmagadora
maioria dos portugueses tais expectativas são negativas,
e sê-lo-iam ainda mais se eles pudessem ver todas as implicações
das mudanças económicas e legislativas em curso, as
quais ameaçam inverter o processo de aproximação
real à Europa dos últimos vinte anos.
O capitalismo europeu (ao contrário do norte-americano) depende
da combinação de altos níveis de produtividade,
assentes na inovação tecnológica, com altos
níveis de protecção social, obtidos em sede
de concertação social sob a égide do Estado-providência.
A situação portuguesa afasta-se cada vez mais deste
modelo. Porque não se investiu na educação,
na formação profissional e na investigação
científica e tecnológica, não foi possível
alterar significativamente o padrão de especialização
da nossa economia. Daí que tenhamos de continuar a competir
com os países menos desenvolvidos, sobretudo com os que se
preparam para entrar na UE. Sendo tarde de mais para a competição
tecnológica, procura-se a competição legislativa.
Daí a "urgência" do novo Código de
Trabalho. Só que também é tarde de mais para
a competição legislativa, dadas as grandes diferenças
salariais entre os países em competição. Nenhuma
alteração legislativa impedirá a deslocalização
das empresas. A nova legislação traz prejuízos
aos trabalhadores e nenhum benefício a médio prazo
à economia portuguesa. Se não houver um dramático
aumento de investimento científico e tecnológico,
Portugal será insustentável, a médio prazo,
enquanto país europeu.
Porque o modelo europeu está cada vez mais distante, substituiu-se
a concertação social pela "auscultação"
social. No caso do trabalho, tal substituição é
talvez provisória e visa alterar as regras do jogo da futura
concertação. Tal objectivo está presente na
revisão da representatividade sindical para negociar convenções
de trabalho. Tudo leva a crer que tal revisão, talhada à
medida da UGT, reconfigure toda a negociação colectiva
futura. Mas a suspensão da concertação ocorre
mais gravosamente numa área onde surpreendentemente a contestação
social é quase inexistente. Refiro-me à nova lei de
bases da segurança social. Uma vez adoptada, a privatização
parcial do sistema público de pensões, ao contrário
das alterações na lei do trabalho, é irreversível.
Experiências recentes de países tão díspares
quanto o Chile, a Inglaterra e a Suíça, mostram que,
em períodos de crise dos mercados financeiros, serão
os cidadãos (ou o Estado) a assumir os custos da baixa das
taxas de remuneração. Ou seja, as pensões em
capitalização podem baixar ou, em casos extremos,
desaparecer, de um mês para o outro. Com isto, a segurança
da pensão de reforma transforma-se num risco social adicional.
É urgente que os portugueses se dêem conta deste risco.
Perguntem-se se era necessária uma nova lei de Segurança
Social dois anos depois de ser aprovada a anterior, regulamentada
na base de um amplo consenso em sede de concertação
social. Se não é estranho que Bagão Felix,
que foi o "pai" da lei de bases de 1984, tenha tido tanta
pressa em ser o pai da lei de 2002. Se a flexibilidade revelada
pelo Ministro na revisão das leis do trabalho não
estará relacionada com a sua determinação na
aprovação da lei da segurança social. Se não
há aqui uma agenda de reformismo conservador bem persistente.
Perguntem-se, sobretudo, como podemos ser optimistas quando os direitos
são restringidos, como podemos ter autoestima quando até
as sandwiches nos comboios são espanholas.
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