| O
FSM simboliza a esperança do mundo contra a injustiça
e a exclusão |
O terceiro Fórum Social Mundial (FSM) foi um êxito.
O êxito não reside no número dos participantes
mas na qualidade das intervenções, dos debates, das
propostas e sobretudo da riqueza e variedade dos encontros e das
novas institucionalidades internacionais que foram criadas no Fórum
para durar para além dele. Nos dias anteriores e durante
o FSM realizaram-se muitos outros fóruns paralelos: Fórum
Mundial dos Juízes, Fórum Mundial das Autoridades
Locais, Fórum Mundial da Educação, Fórum
Mundial dos Meios de Comunicação Independente, Fórum
Mundial dos Parlamentares, etc. Foram criadas novas instituições,
entre elas o Observatório dos Orçamentos Participativos,
o Observatório dos Meios de Comunicação, a
Rede Mundial de Juízes Democráticos, as Nações
Unidas das Cidades ou Cidades Unidas, etc., etc. Eu próprio
propus a criação de uma Universidade Popular dos Movimentos
Sociais cujo funcionamento a título experimental está
já assegurado por duas organizações não
governamentais, uma da Colômbia e outra da Holanda. Posteriormente
ao Fórum foram organizadas múltiplas reuniões
para, em grupos mais restritos, se discutirem os desafios criados
por este movimento dos movimentos e as articulações
para actuações políticas concretas de âmbito
regional ou temático. Tive o privilégio de participar,
no Recife, num fórum de líderes dos movimentos feministas
da América Latina onde, durante dois dias e num grupo de
35 pessoas, foi possível realizar debates aprofundados sobre
o futuro dos movimentos.
Quando, em 2001, se realizou o primeiro FSM foi fácil aos
grandes media ridicularizar o evento como uma reunião de
esquerdistas, desordeiros e inimigos da democracia representativa.
Em 2002, o FSM teve a coragem de enfrentar a já evidente
deriva belicista com que os EUA pretenderam aproveitar a tragédia
humana dos ataques às Torres Gémeas. Organizou o Fórum
Mundial da Paz, atraiu a atenção da social-democracia
europeia e mais do que duplicou o número de delegados vindos
de quase todos os países do mundo. Em 2003, o terceiro FSM
enviou a Davos o presidente de um grande país, eleito democraticamente,
cuja trajectória política simboliza a complementaridade
virtuosa que pode existir entre a democracia representativa e a
democracia participativa e a energia democrática e ética
hoje gerada pela aspiração pacífica e veemente
de justiça social. Se há três anos, o FSM se
organizou contra o Fórum Económico Mundial de Davos
(FEM), este ano foi o FEM que se organizou contra o FSM e foi essa
inversão que justifica o convite ao Presidente Lula. Em três
anos, o FEM parece um cadáver adiado enquanto o FSM é
um facto político internacional incontornável de primeira
grandeza.
Reconhecer tudo isto não significa embarcar em triunfalismos
descabidos. São bem conhecidos os limites e os desafios.
Os resultados concretos do trabalho político do FSM são
por enquanto escassos. A espiral da guerra que se aproxima pode
afectar decisivamente tanto a globalização neoliberal
como a globalização solidária dos movimentos
sociais e mergulhar-nos numa nova forma de nacionalismo agressivo
à escala planetária. Por outro lado, o modelo organizativo
do FSM tem de mudar já que a sua dimensão pode vir
a prejudicar a sua eficácia. Acresce que o FSM é ainda
pouco internacional já que a África e mesmo a Ásia
não têm estado presentes na proporção
das suas populações e dos seus problemas. Foi acertada
a decisão de realizar o próprio FSM na Índia
e de dar prioridade aos fóruns nacionais, regionais e temáticos.
O Fórum Social Português realizar-se-á em Lisboa
de 7 a 10 de Junho próximo.
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