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As manifestações do último fim de semana contra
a guerra no Iraque têm um significado político que
vai muito para além do objectivo imediato do protesto contra
a guerra e da luta pela paz. O número de manifestantes é
impressionante, sobretudo na Europa, EUA, Canadá, Austrália
e América Latina mas, mesmo assim, não exprime plenamente
o sentimento de revolta dos cidadãos de todo o mundo ante
a vertigem belicista e expansionista que, mais uma vez, se apoderou
de algumas potências ocidentais. Em sociedades em que as manifestações
deste tipo no espaço público são menos usuais
- por serem culturalmente estranhas e/ou politicamente reprimidas
- outras expressões de revolta são hoje identificáveis
e não são menos significativas. Por exemplo, nas sociedades
islâmicas, do Médio Oriente, África e Ásia,
onde a religião permeia a vida, está a aumentar dramaticamente
a afluência às mesquitas e tal facto é indicativo
do mesmo sentimento de revolta (e também de impotência)
que noutros lugares se expressa na praça pública.
E há ainda que contar com a expressão de solidariedade
por parte de países que transformam a justificação
da não participação activa nos protestos numa
forma eloquente de participação. É o caso dos
países africanos que, através dos seus líderes
e associações, chamaram a atenção durante
esta semana para as guerras que avassalaram a África nestes
últimos cinquenta anos - morreram mais pessoas em vários
tipos de guerra do que na Segunda Guerra Mundial - e a que o mundo
assistiu cinicamente distraído e para o temor de que uma
manifestação mais afoita de solidariedade contra a
guerra no Iraque faça desabafar sobre eles mais represálias
por parte dos EUA, inviabilizando ainda mais a tarefa absurdamente
gigantesca de garantir a sobrevivência das populações
africanas.
Fica, pois, claro que as manifestações do último
fim de semana, eloquentes em si mesmas, são a voz que traduz
outras vozes (e silêncios) em que se exprime a mesma luta
pela paz e pela justiça social. Qual é, pois, o seu
significado político? Em primeiro lugar, elas são
uma emergência, o embrião de um novo actor político
transnacional em que pode vir a assentar, no futuro, uma sociedade
civil global. A convocação mundial das manifestações
foi decidida no Fórum Social Europeu que se realizou em Florença,
em Novembro passado, e que terminou, ele próprio, com uma
marcha pela paz com mais de um milhão de participantes. Por
sua vez, este Fórum é uma emanação do
Fórum Social Mundial que, em sua segunda edição
em Janeiro de 2002, em Porto Alegre, decidiu a realização
de foros regionais e temáticos. O Fórum Social Mundial
é o movimento dos movimentos que, ainda de forma incipiente,
organiza globalmente a luta contra o neoliberalismo, pela justiça
social e pela paz. O seu significado político reside em ter
mostrado que há alternativas à globalização
neoliberal, agora geminada com a globalização da guerra
imperial.
Em segundo lugar, as manifestações, para além
da sua articulação global, têm significado político
nacional nos diferentes países em que se realizaram e este
será a curto prazo, quiçá, o mais consistente.
O facto de elas terem tido maior expressão nos países
do Norte e terem sido particularmente intensas nos países
cujos dirigentes políticos se alinharam com os EUA - com
particular destaque para a Inglaterra, a Espanha e a Itália
- significa, por um lado, que a nova onda de expansionismo violento,
imperial, ao contrário da onda colonial de finais do séc.
XIX, não conta com o apoio dos cidadãos do Norte.
Foi necessário um século para que estes de dessem
conta de que existe um Sul e que esse Sul é feito de gente
igual a nós em dignidade, respeito e aspiração
de direitos. Significa, por outro lado, que o fosso entre cidadãos
e dirigentes políticos é cada vez maior e que a democracia
representativa está agora submetida a um teste decisivo.
Se a guerra ocorrer com as consequências que se prevêm
e, apesar disso, líderes políticos como Bush, Blair,
Berlusconi, Aznar e Barroso ganharem as próximas eleições,
teremos passado, nos respectivos países, de democracias de
baixa intensidade para democracias de baixíssima intensidade.
As manifestações representam a aspiração
de uma democracia de alta intensidade em que a participação
dos cidadãos e a representação política
convergem na construção de decisões políticas
prudentes ancoradas nos anseios das populações. Essa
aspiração interpela, não só os dirigentes
políticos, como os media. Um pouco por toda a parte, assistimos
nos últimos tempos à incontinência e à
insensatez de comentadores políticos, desfazendo-se em arengas,
por vezes longas, justificando a guerra. A estes novos estadistas
da ignorância e da arrogância, as manifestações
responderam que há limites para manipulação
e para a falta de senso.
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