| A Região Centro não é uma
região central. Paradoxalmente, a sua posição
territorial tem sido impeditiva da criação de centralidade
sociológica. Situada entre as duas grandes áreas metropolitanas
do país e polarizada pelos efeitos de atracção
que elas geram, tem tido dificuldade em consolidar a sua coesão
regional e em afirmá-la nacionalmente por força das
suas especificidades virtuosas. Paradoxalmente também, esta
dificuldade e esta fragilidade são o outro lado das suas
enormes potencialidades. Ou seja, no momento em que a Região
Centro conseguir endogeneizar os efeitos de atracção
de Lisboa e Porto, segundo uma lógica de coesão e
não segundo uma lógica de fragmentação,
como ocorre agora, será uma região decisiva para o
desenvolvimento equilibrado do país, constituindo a mediação
que impede a dupla macrocefalia do país.
Constituída por um quadro físico difícil, condicionante
das acessibilidades, tem sido compartimentada num mosaico de espaços
com fracas articulações entre si e a sua identidade
tem-se afirmado como uma identidade também ela em mosaico,
feita de pertenças territoriais à espera de um elemento
aglutinador.
A própria organização multipolar da rede urbana
reflecte esta organização do território. É
uma região sem metrópole e sem grandes cidades. Apesar
de Coimbra ser uma das principais cidades do país, tem tido
dificuldades em polarizar o território da região.
Com efeito, e entre outras razões, as carências nalguns
sectores de serviços, nomeadamente os de apoio à produção,
têm contribuído para o descentramento da região,
ao favorecer as articulações interregionais.
A própria lógica do desenvolvimento e do investimento
público, colmatando embora algumas debilidades estruturais,
tem introduzido novas tensões, tendências centrífugas
e factores de diferenciação intraregional. Por exemplo,
nas acessibilidades, a ausência de eixos estruturadores intraregionais
faz com que o grande anel rodoferroviário envolvente favoreça
o relacionamento com o exterior em detrimento da densificação
regional.
Por outro lado, a expansão dos serviços públicos,
designadamente os da saúde e da educação, tem
constituído um aspecto relevante para a afirmação
das cidades do topo da hierarquia urbana, dificultando ainda mais
a afirmação de uma capital regional.
Do ponto de vista da sua base produtiva, igualmente, a proximidade
às áreas metropolitanas por parte dos "sistemas
produtivos locais" dinâmicos, do Litoral Norte e Sul,
tem impedido que tal dinâmica seja totalmente endogeneizada,
o que fragiliza ainda mais uma estrutura produtiva marcada pela
importância da base agrária, pela fraca integração
regional da sua base industrial, bem como por áreas submetidas
a processos de declínio ou de reconversão industrial.
Deixar actuar e intensificar estas tensões desagregadoras
significa rendermo-nos ao processo de metropolização
que tem caracterizado o espaço nacional dominado pela lógica
das novas formas de economia, com dinâmicas mais agressivas
que potenciam novos fenómenos de exclusão territorial
e novas assimetrias regionais. Se tal processo não for controlado,
a região será definitivamente pulverizada e, com isso,
serão segregadas e marginalizadas muitas das vastas áreas
que a constituem.
O papel e o sentido da Região é, actualmente, o de
substituir o cimento do aparelho administrativo tradicional por
formas de coesão institucional que assegurem as políticas
e instrumentos valorizadores das especificidades e complementaridades
de cada uma das suas parcelas. Tudo isto aponta para a necessidade
de colmatar défices. E significa concretizar decididamente
algumas medidas, nas quais regionalmente nos reconhecemos: encarar
de forma inovadora a articulação urbano-rural, considerando
de forma criativa as novas funções do espaço
rural, apoiando iniciativas como o Acert e Belgais, por exemplo;
desafiar o envelhecimento da população, lançando
programas especiais no interior; afrontar os desafios ambientais
que o abandono da floresta e agricultura acarreta; inovar e valorizar
as universidades e centros de investigação; fixar
a mão-de-obra qualificada e regionalmente formada; reforçar
a importância do território para a internacionalização
da economia, a sua competitividade e eixos de desenvolvimento; apoiar
a excelência nas áreas da saúde e das ciências
da vida; fortificar dinâmicas tecnológicas; construir
redes de acessibilidades capilares e modernizar as ferroviárias;
desenvolver cooperações intermunicipais; promover
culturas urbanas de proximidade que sejam eficazes agentes de descentralização
e diversidade culturais.
A Região Centro constitui hoje um desafio às políticas
públicas territoriais. Só ela o pode enfrentar e se
o souber enfrentar eficazmente aí residirá o embrião
da sua centralidade sociológica.
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