| O
espaço vital do império exige o sexismo e a guerra |
Escrevendo no final
da 2ª Guerra Mundial, o filósofo Levinas afirma que
o horror nazi não o surpreendeu. Segundo ele, não
tendo sido inevitável o nazismo, tão pouco surgiu
por acaso. A violência e a guerra em que se traduzira estavam
inscritas nas concepções de ser e existência
que têm dominado o Ocidente. Há nessas concepções
uma violência ontológica que consiste em negar a existência
do outro como igual. Trata-se de uma ideia colonial do ser que justifica
a aniquilação do outro. Levinas pretendia com isto
mostrar como surgira o antisemitismo. Penso que a colonialidade
do ser e do poder são inerentes às sociedades modernas
pelo menos desde o séc. XV e que as suas manifestações
são muito mais vastas que o antisemitismo. São o racismo,
o sexismo, a guerra, o colonialismo e o imperialismo.
Essa colonialidade consiste em atribuir-se o direito de definir
quem é igual e quem é diferente e de decidir a sorte
do diferente porque inferior. A justificação da decisão
é dupla: por um lado, o inferior é perigoso, por outro
lado, não sabe o que é bom para ele. O tempo e o espaço
do inferior são vazios de sentido e por isso disponíveis
para serem ocupados. Esta ideia de vazio de sentido provém
de uma ignorância activamente produzida a respeito do inferior.
Do inferior não se pode ter um conhecimento detalhado porque
isso complica o objectivo da ocupação. As terras dos
indígenas da América estavam vazias porque ocupadas
por seres sub-humanos. Tal como para Freud a sexualidade é
masculina e a mulher, um ser castrado pronto a ser ocupado pelo
desejo do homem. Tal como para Bush os iraquianos desejam a ocupação
para serem libertados ou têm de se resignar a serem objectos
de ocupação imperial. A possibilidade de resistência
por parte deles não cabe na ignorância que se tem deles.
Por isso, causa surpresa. É um comportamento bizarro. Porque
conscientemente instrumental, o conhecimento que se tem do ser inferior
é selectivo, estritamente direccionado para ocupação
e imune a qualquer contaminação de proximidade. As
bombas inteligentes são a versão mais acabada deste
conhecimento em acção.
A ocupação imperial é sempre reivindicada em
nome do espaço vital, a expansão do campo de acção
para que o ser colonizador possa desenvolver plenamente a sua humanidade.
Este espaço vital tanto podem ser as terras indígenas
da Conquista, como as terras africanas depois da Conferência
de Berlim, o corpo da mulher, dos escravos ou dos recrutados para
o trabalho forçado, ou agora os poços de petróleo
do Iraque. Para ser eficaz, a reivindicação do espaço
vital tem de ser unilateral e inconsciente da sua unilateralidade.
Na semana passada, o jornalista financeiro da Antena 1 afirmava
com a máxima circunspecção: "Para levantar
a moral dos mercados é fundamental que Bagdade seja ocupada
esta semana".
A humanidade só pode chegar ao colonizado por via da ocupação.
Por isso é tão fácil destruir a democracia
em nome da democracia, eleger ditaduras e reservar os direitos humanos
para quem os merece. Em 5 de Março, o jornalista da Fox News
comentava assim a tortura a que teria sido submetido um alegado
membro da Al Quaeda: "é um pedaço de lixo humano
sem direitos de nenhuma espécie". A ocupação
é uma destruição criadora. Por coerência,
a reconstrução do Iraque tem de começar no
dia da sua destruição. Quanto mais destrutiva é
a ocupação, mais alta é a justificação.
Dizia Hitler: "Deus está connosco". Neste particular,
Bush não é diferente.
Estava errado Kant quando pensava que o iluminismo traria a paz
perpétua. Ao contrário, a guerra é inerente
à modernidade. Estava errado Lenin quando pensava que o imperialismo
era uma fase superior do capitalismo. Ao contrário, o capitalismo
tem sido sempre imperial. Estava errado Marx quando pensava que
o capitalismo era um sistema económico. É, ao contrário,
um sistema de dominação global que inclui a guerra,
o sexismo, o racismo, o colonialismo e o imperialismo.
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