| Ante
a guerra e a barbárie, os cientistas terão de
ser objectivos mas não neutros |
Issa Shivji é
professor da Faculdade de Direito da Universidade de Dar es Salaam
(Tanzânia). Internacionalmente conhecido e um amigo meu de
longa data, foi convidado há meses para participar num Colóquio
Internacional sobre o Direito e a Justiça no Século
XXI que o Centro de Estudos Sociais está a organizar e que
se realizará na Universidade de Coimbra de 29 a 31 de Maio
próximo. Com este colóquio, em que participam conferencistas
vindos da Europa, África, Américas e Ásia,
pretendemos promover uma reflexão internacional sobre os
desafios que o direito e a administração da justiça
enfrentarão nas próximas décadas. Entusiasmado,
Issa Shivji aceitou há meses o convite. Na semana passada
escreveu-me a decliná-lo, com a justificação
de não querer continuar a colaborar com os países
ocidentais depois da invasão ilegal do Iraque e da barbárie
high-tech infligida aos iraquianos. Diz ele a certa altura: "Como
poderei eu teorizar sobre o direito e a justiça como campo
de luta pela libertação dos oprimidos, tese que me
é tão cara, quando bombas americanas pesando uma tonelada
e rotuladas "libertação do Iraque" enterram
crianças de 13 anos, como o meu filho, em profundas crateras...
A hegemonia institucional das nossas universidades apenas nos permite
partilhar a nossa indignação nos bares, ao final da
tarde, depois de termos apresentado as nossas circunspectas comunicações
sobre o direito e a justiça. Basta de esquizofrenia intelectual!"
Respondi-lhe, pedindo que reconsidere. Eis alguns trechos da minha
mensagem: "A tua integridade moral e política, a tua
lucidez crítica a respeito das concepções hegemónicas
dos direitos humanos, a tua luta pela democracia participativa e
por um conhecimento solidário estiveram na base do convite
que te dirigi e, naturalmente, dói-me o coração
que sejam essas mesmas razões as que te levam a declinar
o nosso convite. Queria dizer-te que a ciência que procuramos
realizar aqui tem muitas atinências com a que tens vindo a
realizar de modo brilhante. Para nós a ciência, objectiva
mas não neutral, é um exercício de cidadania
e estamos certos de que não há justiça social
global sem justiça cognitiva global... Ao contrário
de Habermas, penso que o nazismo e Bush não são desvios
ou aberrações da modernidade Ocidental. São
constitutivos dela. Não tinham de acontecer necessariamente,
mas tão-pouco aconteceram por acaso. Como português,
sinto-me envergonhado e revoltado com a posição do
governo do meu país a favor da guerra, quando a grande maioria
da população é contra. Tenho vindo a lutar
contra essa posição por todos os meios democráticos
ao meu alcance. Mas a luta tem de ser global e tem de nos mobilizar
a todos.
A ciência e os cientistas não podem dispensar-se de
responder à questão: de que lado estou? Porque se
o fizerem estão, de facto, a alinhar com a barbárie.
Como sabes, tenho estado muito activo nos trabalhos do Fórum
Social Mundial e a ideia que nos norteia é que não
podemos render-nos ao pensamento único e à arrogância
tecnológica do capitalismo selvagem e belicista. Não
podemos desistir. É isso o que os falcões instalados
na Casa Branca desejam.
Por isso, meu Caro Issa, peço-te que faças da visita
a Coimbra um momento de denúncia e de luta. Não quero
que faças uma comunicação com ideias diferentes
das que constam da tua mensagem. Se não vieres, lutaremos
sem ti, ainda que a pensar em ti. Será, pois, mais difícil.
Daí o meu pedido para que reconsideres. Os nossos filhos
reconhecerão que as nossas ideias e as nossas lutas por uma
sociedade mais justa e solidária não têm a eficácia
das bombas, mas são a única alternativa digna de seres
humanos."
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