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No passado dia 23
de Abril fiz uma palestra no Círculo de Belas Artes de Madrid,
organizada para lançar a edição espanhola do
meu livro "Crítica da Razão Indolente".
A palestra foi integrada numa série de mini-colóquios
sobre "Democracia ou Barbárie". O antropólogo
Juan Aranzadi partilhou a mesa comigo. O debate entre nós
foi vivo e fez-me pensar. Segundo os organizadores, o tema geral
foi escolhido para propiciar uma análise dos desafios com
que se confronta a democracia ante as novas hegemonias da guerra
infinita e da globalização económica. Comecei
por reflectir sobre as mudanças em curso nas ciências
sociais enquanto instrumentos de diagnóstico do presente,
e expus as minhas ideias sobre a globalização, um
fenómeno velho-novo, complexo, que se, por um lado, é
o rosto da arrogância do mercado frente às suas vítimas,
o veículo mais eficaz da expansão planetária
do capitalismo, por outro lado, cria novas oportunidades para a
luta contra a exclusão social, ao tornar possível
a articulação global entre movimentos e organizações
sociais que lutam, em diferentes sociedades, pelos mesmos objectivos
da construção de uma sociedade mais justa, solidária
e multicultural. Concluí com a ideia de que só o aprofundamento
da democracia a nível local, nacional e global pode pôr
cobro à violência da fome e da guerra.
O meu parceiro de mesa criticou veementemente a minha posição
por excessivamente optimista, mesmo tendo em conta a severidade
do meu diagnóstico. Para sustentar a sua posição
radicalmente pessimista e mesmo niilista, Aranzadi desenvolveu os
seguintes argumentos: a modernidade ocidental tem sido uma máquina
global de extermínio de populações (mais de
50 milhões de indígenas, e outros tantos escravos;
entre 8 e 12 milhões de congoleses só no período
em que o Congo foi propriedade particular do rei Leopoldo da Bélgica;
10 milhões no Gulag; 6 milhões no holocausto); o Ocidente
só exportou a Bíblia e a sociedade de mercado, nunca
a democracia; não é possível o multiculturalismo
porque a cultura ocidental é um vírus que destrói
as culturas com que contacta; a democracia ocidental não
é alternativa à barbárie porque ela própria
é barbárie; não há alternativa, não
há esperança.
O debate foi intenso. Procurei mostrar: que o niilismo é
apenas mais uma manifestação da arrogância capitalista
ocidental; que a afirmação de que não há
alternativa é um luxo a que se não podem dar muitos
milhões de pessoas que lutam pela sobrevivência, contra
a fome, a violência e a doença; que o "Ocidente"
é algo demasiado complexo para se deixar captar numa visão
monolítica; e que as certezas dos opressores foram ao longo
da história muitas vezes desmentidas pelas lutas dos oprimidos.
O que mais me impressionou foi saber que o meu comentador pertence
a uma geração de cientistas sociais, caldeada em militância
de esquerda e mesmo de extrema-esquerda, que entretanto se desencantou
da política e que não quis ou não pôde
transformar o desencanto numa nova energia rebelde e transformadora.
Será este um sinal dos tempos? Será que a mercantilização
obsessiva da vida, combinada com a inabarcável violência
da guerra tecnológica, privatiza por dentro os cidadãos
ao ponto de os fechar em casas de falsa consciência donde
só se sai em dias de chuva para provar a si mesmo que nunca
houve sol? Será que esta falsa consciência assume nos
dias de hoje uma nova faceta ao radicalizar de tal maneira o inconformismo
até ele se transmutar na fonte do que o inconforma? Será
que caminhamos para uma sociedade em que a democracia e a barbárie
se transformam em acessórios da consciência, demasiado
portáteis para entenderem a vida e a morte?
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