| A sociedade portuguesa mudou muito nos últimos
dez anos, mas muitas dessas mudanças só são
notórias contra o pano de fundo de resistentes continuidades.
Talvez por isso não haja consenso sobre o âmbito, o
sentido e a intensidade das mudanças. Se para alguns foram
demasiadas e demasiadamente rápidas, para outros, elas não
conseguiram arrancar-nos dos atávicos imobilismos. Esta divergência
de opiniões é normal em todas as sociedades que passam
por processos semelhantes. Mas entre nós tem um significado
próprio, e é sobre ele que me debruçarei.
Eis um elenco possível das principais mudanças sem
ordem de precedência: aumento da imigração (depois
de África, os países de Leste) com a correspondente
alteração da estrutura social e cultural da população;
emergência de movimentos sociais amplos e transversais, do
apoio à independência de Timor Leste à defesa
do meio ambiente e à luta contra a guerra; aumento das assimetrias
regionais e intensificação do processo de metropolização
territorial (Lisboa e Porto), mas, ao mesmo tempo, incremento da
intensidade urbana (aumento da oferta de serviços e padrões
de consumo) em pequenas e médias cidades; ascensão
e queda da nova economia; explosão da micro-informática
e dos telemóveis (em 1998 só os países escandinavos
nos ultrapassavam); aumento da oferta do ensino superior; consolidação
do sistema público de segurança social, entretanto
posta em causa pelo actual governo; criação de um
sistema nacional de ciência e de tecnologia; melhoria dos
indicadores de pobreza com um decréscimo de 24% para 21%
da taxa de pobreza relativa (percentagem da população
residente com rendimento inferior a 60% da média do rendimento
nacional); aumento da precarização do emprego (contratos
a prazo e desestruturação das carreiras); aumento
do desemprego de licenciados/as; incremento da discrepância
entre rendimento e padrões de consumo, com o consequente
e dramático aumento do endividamento das famílias;
reforço do direito dos homens a gozarem de licenças
para assistência aos filhos (licença de paternidade
e licença parental); aumento importante da cultura como área
de intervenção política do Estado e, sobretudo,
das autarquias; incremento das indústrias culturais, da produção
mediática e da publicidade, em parte ligado à privatização
da televisão; informalização e desjudicialização
da justiça e a introdução de novas tecnologias
de informação e de comunicação no sistema
judicial; emergência de novos (ou velhos, mas até agora
não denunciados) tipos de criminalidade, do crime económico
organizado às associações criminosas, corrupção,
tráfico de drogas e de armas, pedofilia; aumento da participação
das mulheres em muitas áreas da vida social (não política)
e, nomeadamente, na administração da justiça;
começo do fim da impunidade dos poderosos; aumento da distância
entre os cidadãos e o sistema político com a subida
da abstenção e a fraca participação
nos referendos; incremento da mediatização da política;
emergência e consolidação do Bloco de Esquerda;
entrada da homossexualidade e dos direitos sexuais no discurso político.
A sociedade portuguesa é uma sociedade em movimento. Todas
as sociedades são sociedades em movimento, mas entre nós
essa constatação tem um significado específico
que não tem noutras sociedades europeias. É que vivemos
na presença de um tempo passado, mas recente, de imobilismo,
de estagnação e, portanto, de decadência, contra
o qual imaginamos estar a impor-se a presença rival de um
tempo de ruptura e de mudança. Nas representações
dos Portugueses, o tempo do imobilismo é o tempo do fascismo,
Estado Novo, ditadura, Salazar, Cerejeira, PIDE, províncias
ultramarinas, censura, União Nacional, guerra colonial, saudade,
fado, futebol e Fátima, a Bem da Nação, censura,
Marcelo Caetano, Movimento Nacional Feminino, brandos costumes,
orgulhosamente sós, a aldeia mais portuguesa, agricultura
camponesa, Deus, Pátria e Família, Mocidade Portuguesa,
Angola é nossa, mulher-mãe-e-esposa, conversa em família,
enxovais para os pobrezinhos, Abril em Portugal, povo que lavas
no rio, cópia e ditado, criada de serviço, madrinhas
de guerra. Por sua vez, o tempo de mudança é o tempo
do 25 de Abril, liberdade, democracia, descolonização,
partidos políticos, manifestações, União
Europeia, Zeca Afonso, greves, coca-cola, escola nova, Mário
Soares, gestão democrática, Xico Fininho, nacionalizações,
privatizações, contratos a prazo, computadores, vídeos,
telemóveis, mulher-operária-e-profissional, drogas,
endividamento, Maria de Lurdes Pintasilgo, Expo 98, Siza Vieira,
discotecas, turismo rural, Procuradoria Geral da República,
Eduardo Lourenço, José Saramago, euro, rádios
locais, internet, disk jockeys.
Estas duas presenças estão profundamente enraizadas
no imaginário dos portugueses. E são ambas, em grande
medida, ilusórias. Nem o tempo do salazarismo foi só
de imobilismo, nem o tempo do 25 de Abril tem sido só de
mudança. Se no primeiro tempo vivemos a mudança sob
a forma do imobilismo, no segundo tempo vivemos o imobilismo sob
a forma da mudança. Esta mudança nas formas vivenciais
dos dois tempos é em si mesma significativa. No primeiro
tempo, a mudança foi socialmente desvalorizada, ocorrendo
subterrânea e anonimamente. Foi por isso que o 25 de Abril
colheu de surpresa a grande maioria dos Portugueses. No segundo
tempo, é o imobilismo que é socialmente desvalorizado,
ao ponto de tornar-se inominável ou irrepresentável.
A negação do imobilismo é também a negação
da ruptura com ele. O facto de o 25 de Abril ser desvalorizado,
ou mesmo estar ausente, em muitas das nossas escolas não
significa que se desvalorize a ruptura com o imobilismo da sociedade
anterior. Desvaloriza-se, isso sim, que a sociedade anterior alguma
vez tenha existido de forma diferente e relevante para o que hoje
somos.
Esta mudança de percepção e de perspectiva
é, de facto, a mais significativa de todas porque é
ela que condicionará o sentido e o modo como o futuro nos
surpreenderá. Se no tempo do imobilismo foi o 25 de Abril
que nos surpreendeu, o que nos surpreenderá no tempo de mudança?
Algo que não será nem ruptura com o presente, nem
trará algo de novo e melhor? Algo como um imobilismo assumido,
o imobilismo que se afirma na manutenção desta mudança
em que vivemos hoje? A surpresa estará em termos de concluir
que, afinal, não saímos do lugar onde sempre estivemos,
ou, pelo contrário, que o lugar em que estamos se desloca
tão lentamente que nem como jangada de pedra percebemos o
seu movimento?
Vivemos um entre-tempos, duas presenças rivais e, de facto,
nenhuma delas suficientemente consistente ou convincente para desalojar
a rival. E assim vamos viver por mais tempo. Esta vivência
dividida divide também as lealdades, os critérios
e os projectos, o que leva a que as clivagens entre os Portugueses
não sejam nunca assumidas como muito vincadas. O que é
mais significativo, que no espaço de dez anos tenhamos passado
de conferências em prosa para conferências em power
point ou de escrita em português para mensagens SMS em
telemovês, ou, pelo contrário, que continuemos, como
há séculos, a formar a mão-de-obra menos qualificada
da Europa ou a premiar a ganância fácil em detrimento
do trabalho e do investimento produtivos ou, como há décadas,
que o nosso Estado (e, sobretudo, as nossas empresas) dediquem à
investigação as percentagens do PIB mais baixas da
Europa? É mais significativo que a diversidade religiosa
tenha aumentado expressivamente nos últimos dez anos ou que
a Igreja católica portuguesa continue, como há séculos,
conservadora e "instrumento do reino" (sob a sua égide
entra um neoliberalismo baptizado com a reforma da segurança
social e novo código do trabalho)? É mais significativo
que tenhamos passado de um país de emigrantes a um país
de imigrantes ou que continuemos a ter os salários mais baixos
da Europa? Não há consenso entre os que pensam que
as mudanças acabarão por arrastar consigo as continuidades
e aqueles que pensam que as continuidades acabarão por boicotar
ou tornar irrelevantes as mudanças. Mas este discurso não
potencia, ao contrário do que seria de pensar, a emergência
de clivagens políticas ou culturais fortes. É que
nenhum português está do lado da valorização
da mudança ou da continuidade em todas as áreas da
vida social. Se nalgumas áreas valoriza a mudança,
noutras valoriza a continuidade. E como quer as mudanças,
quer as continuidades podem ter, na grande maioria dos casos, aspectos
positivos e aspectos negativos, alguns valorizam-nas pelo que têm
de negativo, enquanto outros as valorizam pelo que têm de
positivo.
Este entrecruzar de percepções de mudança e
percepções de imobilismo e de valorização,
ora positivas, ora negativas, do que muda e do que permanece, faz
com que em Portugal seja difícil formar blocos sociais e
políticos que promovam projectos inequívocos e coerentes
de transformação social (ou de recusa dela). Daí
que as forças de esquerda não se identifiquem entre
si senão pelo que as divide; daí que não haja
entre nós um forte partido de extrema-direita; daí
que entre a esquerda "responsável" e a direita
"responsável" haja, sobretudo, em comum a mesma
falta de sentimento de responsabilidade por um projecto político,
social, económico e cultural coerente e inequívoco.
Politicamente, em Portugal o centrismo prospera, não como
projecto, mas como ausência de projecto. E a ausência
de projecto, por tão reiterada pelo hábito, passa
facilmente por projecto alternativo a si mesma.
Esta ausência de projecto feita projecto tem hoje uma versão
particular que se vincou muito nos últimos dez anos. Essa
versão é a União Europeia. Na aparência,
a União Europeia representa o fim da multissecular ausência
de projecto. Finalmente, somos parte de um verdadeiro projecto que
excede em muitos aspectos o nosso presente, que tem objectivos claros
e dispõe de um plano, métodos e estratégias
para os atingir. É, além disso, um projecto hegemónico,
ou seja, um projecto que concita entre nós o mais generalizado
consenso, sendo legítimo ver nele a verdadeira razão
da despolarização na sociedade portuguesa. Atrevo-me,
no entanto, a pensar que o projecto europeu, pelo menos até
agora, é mais uma versão da ausência de projecto.
Sem dúvida que a entrada na União Europeia transformou
profundamente a sociedade portuguesa e, na esmagadora maioria dos
casos, tratou-se de uma transformação positiva, para
melhor. Penso, no entanto, que até agora (repito) essas transformações
são menos assumidas como parte de um projecto que adoptámos
com peso e medida do que como resultado auspicioso de novas rotinas
que nos aconteceram. Estamos no projecto europeu, mas ainda não
somos o projecto europeu. Tal como estivemos nas colónias
sem sermos colonizadores efectivos. Tal como então, estamos
no lugar fora do lugar. Esta continuidade está bem expressa
no aventureirismo que caracteriza o modo como temos utilizado os
fundos estruturais e de coesão em muitos aspectos semelhante
ao aventureirismo que caracterizou o modo como explorámos
as colónias. Nestas fomos quase sempre aventureiros e poucas
vezes colonos. Explorámos com insaciável avidez a
riqueza fácil e à mão, mas raramente nos instalámos
para, com trabalho e tecnologia, valorizar os recursos locais e
multiplicá-los em projectos de desenvolvimento sustentável,
como hoje se diria. É por isso que, enquanto na América
Espanhola se fundaram 23 universidades entre o séc. XVI e
o séc. XIX, as colónias portuguesas tiveram de esperar
pelo séc. XIX, ou mesmo pela segunda metade do séc.
XX (no caso de África) para inaugurarem as suas universidades.
No caso dos fundos estruturais e de coesão, deixámos
que eles se tornassem presa fácil de corrupção
impune, enterrando-os em cimento e betão em vez de os pôr
ao serviço da viragem educativa e científico-tecnológica,
a viragem que nos permitiria apropriarmo-nos do projecto europeu
como verdadeiramente nosso. Estamos, pois, nele mas, por enquanto,
a partir de fora. Mais como hóspedes do que como anfitriões.
Até agora, a entrada na União Europeia é mais
uma versão da ausência-de-projecto-feita-projecto-de-si-mesma.
Por estas razões, a ausência-de-projecto-feita-projecto-de-si-mesma
é o que melhor caracteriza o entre-tempo presente. Ela tem
de facto uma enorme plasticidade que lhe permite transfigurar-se
simultaneamente em imobilismo e em mudança. As suas duas
transfigurações, aparentemente opostas, são
o realismo e o quixotismo. O realismo é, entre nós,
uma atitude de renúncia a mudar a realidade. A mudança
da realidade exige um projecto; não havendo projecto, a rotina
é o melhor seguro contra o futuro incerto. A rotina é
o governo do conhecido pelo conhecido. É a força de
quem não tem força, ou, tendo-a, não sabe que
a tem ou acha desperdício ou perigoso exercê-la. Na
rotina é-se contra o método, o rigor e a previdência
em nome da facilidade, do comedimento e do bom senso naturais do
deixar correr. Aubrey Bell escrevia no início do séc.
XX que a outra palavra tipicamente portuguesa, além da saudade,
era "desleixo", a qual, em seu entender, implicava menos
a falta de energia do que a íntima convicção
de que "não vale a pena…" Este realismo pedestre
é uma das mais longas durações da nossa existência
colectiva e é talvez mais lucidamente observável a
partir daqueles que colonizámos. Diz Sérgio Buarque
de Holanda nas Raízes do Brasil: " a rotina
e não a razão abstracta foi o princípio que
norteou os portugueses, nesta como em tantas outras expressões
da sua actividade colonizadora. Preferiram agir por experiências
sucessivas, nem sempre coordenadas umas às outras, a traçar
de antemão um plano para segui-lo até ao fim. Raros
os estabelecimentos fundados por eles no Brasil que não tenham
mudado uma, duas ou mais vezes de sítio, e a presença
clássica da vila velha ao lado de certos centros urbanos
de origem colonial é persistente testemunho dessa atitude
tateante e perdulária".
O realismo pedestre está sempre a um passo de se converter
em perda de auto-estima. As rotinas são o imobilismo em movimento,
e qualquer mudança que aflore da sua ruminação
subterrânea tende a provocar surpresa. Não havendo
plano, diagnóstico ou desígnio, há surpresas,
isto é, consequências em busca de causas. Como foi
possível o 25 de Abril? Como foi possível o desastre
da equipa portuguesa no campeonato do mundo de Seul? Como é
possível que o bar do combóio entre Lisboa e Porto
sirva sanduíches espanholas? De algum modo, nem merecemos
o que nos acontece de bom, nem o que nos acontece de mau. Nisto
consiste a fragilidade da nossa auto-estima, aquilo a que tenho
chamado o luso-merdismo, o desfocar das expectativas, tanto negativas
como positivas. É por isso que é tão forte,
entre nós, o discurso do "bota abaixo" como o discurso
do "basta de bota abaixo".
Mas a ausência-de-projecto-feita-projecto-de-si-mesma manifesta-se
sob outra forma, o quixotismo. O quixotismo é o realismo
pedestre quando monta a cavalo. A ausência de plano, método
ou razões abstractas, torna possíveis as fulgurações.
As fulgurações são a interrupção
das rotinas, sem peso nem medida, e traduzem-se em intervenções
mal calibradas, contrafactuais. Tivemos recentemente duas manifestações
eloquentes de quixotismo. A primeira consistiu na monocultura política
do controlo do défice orçamental. Em vista da fragilidade
da nossa economia e da conjuntura internacional, tal política
foi uma afirmação quixotesca de lealdade exagerada
e desfocada ao projecto europeu, uma lealdade que seria ridícula
se em vez de hóspedes fossemos anfitriões neste projecto.
O resultado é a recessão económica, o crescimento
negativo do PIB (único na Europa), retrocesso na convergência
(os piores dias que virão com o alargamento da União
Europeia) e o golpe de Estado financeiro que o Estado central acaba
de infligir às autarquias. A segunda manifestação
de quixotismo foi o apoio entusiasta do Primeiro Ministro à
invasão do Iraque, contra a posição do núcleo
duro da UE, o eixo França-Alemanha. Aqui, a lealdade peca
por defeito e mostra igualmente em que medida o projecto europeu
nos é exterior. Um país pequeno, com problemas de
convergência, se levasse a sério o projecto europeu
e o tivesse como seu, teria todo o interesse em alinhar-se pelo
núcleo duro da Europa e ainda para mais apoiado pela opinião
pública. Sucedeu o contrário porque Portugal, inconformado
com a sua pedestrialidade, decidiu cavalgar um projecto mais amplo
do que a União Europeia, a União Atlântica.
Como se, para nos vingarmos de a Europa ser grande de mais para
o Portugal dos Pequenitos, quiséssemos mostrar que Portugal
é grande de mais para a Europa dos Pequenitos. Sem força
para tamanha cavalgada, terminámos nas margens de ambos,
metaforicamente nos Açores. Perdemos a alma, mas ganhámos
umas subempreitadas.
No momento em que se aperta o cerco à sociedade portuguesa,
no momento em que a economia portuguesa, em processo de espanholização
dependente, não parece preparada para enfrentar o desafio
europeu, no momento em que nos evidenciámos como hóspedes,
não apenas relutantes, mas também ingratos da UE,
neste momento a ausência-de-projecto-feita-projecto-de-si-mesma
torna-se insuportável. Não é suportável
que a mudança não continue a ser possível senão
ao ritmo do imobilismo. Não é suportável que
continuemos a inculcar nos nossos jovens os escapes alternativos
do realismo chão e desistente e do quixotismo aéreo
e inconsequente, ou alternativas do bota abaixo/basta de bota abaixo.
Há trinta anos vivemos um momento limite deste bloqueio em
movimento, simbolizado na figura de Marcelo Caetano e retratado
brilhantemente num livro notável de Vasco Pulido Valente
(Marcelo Caetano, As Desventuras da Razão, Gótica,
2002). Trinta anos depois não precisamos de um outro 25 de
Abril porque o que temos não está esgotado. E não
está esgotado porque é inesgotável a expectativa
democrática que nos inculcou. Com o 25 de Abril aconteceu-nos
a democracia, mas até agora não nos demos conta da
enorme exigência que ela nos faz se levada a sério,
no parlamento como no governo, nos tribunais como nas polícias,
nas escolas como nos hospitais, nas comunidades como nas empresas,
na rua como em casa. É por isso que a ausência de projecto
tem passado por projecto, um projecto que, para ser nacional, tem
de ser europeu e, para ser europeu, tem de incluir os países
de língua oficial portuguesa.
Mas o bloqueio em movimento, sendo recorrente na nossa história,
não é uma necessidade histórica. Nos últimos
dez anos tivemos exemplos de boas práticas que, se continuadas
e emuladas, permitiriam romper o bloqueio. Dou o exemplo da prática
que, desta perspectiva, considero mais consequente neste período:
a política científica de Mariano Gago. O seu incontestável
êxito assentou nas seguintes premissas: assumir com lealdade
e sem reservas o projecto europeu; com trabalho e dedicação,
conhecer intimamente os dossiers comunitários, os da nossa
comunidade científica e os dos outros países comunitários;
com tenacidade e imaginação, maximizar a nossa capacidade
de manobra e o respeito pelas nossas especificidades, usando como
critério de orientação o espírito do
quadro jurídico comunitário e não a sua letra;
na frente interna, lutar contra o luso-merdismo - promovendo a auto-estima
sem quixotismo -, ampliar as alianças na comunidade científica
- conferindo cidadania às ciências sociais e humanas
sem o fazer contra a incontestada cidadania das ciências naturais
-, criar, com fortes investimentos em infra-estruturas e recursos
humanos, um sistema coerente de ciência e tecnologia e, acima
de tudo, criar um clima hegemónico, de consensos mobilizadores.
Em resultado desta política, Portugal foi, entre 1996 e 2002,
o país da Europa com maior crescimento na grande maioria
dos indicadores de ciência e tecnologia. Se aplicada, com
as devidas adaptações, noutras áreas de governação,
esta política desbloquearia em poucos anos o país
e pô-lo-ia em verdadeiro movimento, com peso e medida.
Não há que optar entre imobilismo e mudança;
há que interpretar de modo não tradicional a tradição
para abrir o caminho à inovação consistente.
Não há que tentar sínteses entre o quixotismo
de Os Lusíadas e o realismo de O Soldado Prático
de Diogo do Couto. Essas só são possíveis na
literatura e a mais brilhante de todas é a de Fernando Pessoa.
Mas se Portugal não é apenas uma questão de
literatura, é urgente esquecer Fernando Pessoa em nome de
Fernando Pessoa.
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