| A
separação de poderes deixou de ser o que era |
Decorre hoje e amanhã, na Universidade de Coimbra, um colóquio
internacional intitulado "Direito e Justiça no Século
XXI", organizado pelo Centro de Estudos Sociais. O momento
não podia ser mais oportuno. Nestas últimas semanas,
o sistema judicial assumiu um protagonismo sem precedentes na actualidade
mediática e política do nosso país. Instalou-se
a ideia de que estamos perante um conflito entre o sistema judicial
e o sistema político, algo que não é normal
num estado democrático, uma vez que a separação
de poderes atribui a cada um uma esfera distinta de acção
funcional e um conjunto de competências e prerrogativas quando
muito complementares e nunca rivais. A anormalidade causa turbulência
institucional e perplexidade entre os cidadãos. Estes perguntam-se
porquê tudo isto aconteceu e quais as suas consequências.
E não parece haver razões para optimismo dado que
os analistas são unânimes em prever que deste conflito
pelo menos um dos dois sistemas sairá perdedor, se não
mesmo os dois. Nenhum admite a possibilidade de os dois saírem
ganhadores.
O colóquio que se está a realizar em Coimbra contribuirá,
por certo, para contextualizar o nosso drama político-judicial
num vasto horizonte internacional e, com base nisso, para identificar
as condições que poderão vir a desmentir os
cenários propostos pelos nossos analistas. A primeira verificação
é que as situações de stress institucional
entre o sistema político e o sistema judicial têm vindo
a ocorrer com crescente frequência nos mais diferentes países,
sendo de prever que esta tendência se acentue no futuro próximo.
As razões diferem de país para país, mas algumas
são comuns a vários deles. Desde o início da
década de oitenta está em curso a nível internacional
uma profunda transformação do Estado moderno, cujas
linhas principais são as seguintes: fim do Estado empresário
e a consequente privatização de empresas e dos serviços
públicos; atenuação do controle estatal da
economia, crescentemente internacionalizada; declínio dos
direitos sociais e económicos universais que estiveram na
base do Estado-providência e sua substituição
por medidas focalizadas de protecção a grupos sociais
vulneráveis; substituição da ideia do projecto
político nacional pela do respeito da legalidade democrática
garantida pelos tribunais. Consequências destas transformações:
aumento das desigualdades sociais; emergência de novos actores
económicos e sociais com poder para manipular as políticas
estatais a seu favor, aproveitando a crise da ética republicana
do serviço público; imensas oportunidades para a corrupção
facilitada pela atenuação das clivagens ideológicas
e sua substituição pela mediatização
dos políticos; consciência acrescida dos direitos e
da violação dos direitos por parte dos cidadãos
e seu ressentimento contra uma justiça morosa, selectiva
e ineficaz; pressão da opinião pública sobre
o sistema judicial para que termine com a impunidade dos poderosos;
apropriação selectiva da conflitualidade social e
institucional por parte dos meios de comunicação social
movidos por interesses económicos e políticos próprios.
À luz destas transformações, a separação
dos poderes deixou de ser o que era e a turbulência que isso
causa coloca as instituições no fio da navalha. Em
período de stress institucional não se mudam as regras
de jogo, mas o cumprimento exigente das existentes pode apontar
para a urgência de maior transparência na vida pública
e para novas exigências democráticas de prestação
de contas, tanto por parte do sistema político como por parte
do sistema judicial. E, se assim for, não é impossível
imaginar um cenário em que ambos saiam ganhadores do conflito
em curso.
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