| Meu Caro Manuel Carvalho da Silva
Conhecemo-nos há muitos anos, tenho por si muita estima e
nada me leva a pensar que ela não seja recíproca.
Tenho colaborado em múltiplas ocasiões com a CGTP.
Ainda há poucas semanas tive o gosto de ter uma reunião
consigo e com mais dois dirigentes, a vosso pedido, no âmbito
da preparação do próximo congresso da Confederação.
Dei-vos como melhor pude e soube a minha opinião sobre o
modo como analiso hoje a questão do Estado, das instituições
e da administração pública no nosso país.
Nada, pois, me move contra a CGTP e, pelo contrário, quero
que identifique nesta carta o mesmo espírito solidário
e independente que sempre tem pautado as minhas relações
com a organização a que preside.
Dirijo-me hoje publicamente a si para lhe manifestar a minha revolta
pelo modo como a CGTP actuou na Assembleia dos Movimentos Sociais,
que se reuniu no último dia do Fórum Social Português
(FSP) e na manifestação que se seguiu. O único
tema da Assembleia dos Movimentos Sociais era a aprovação
por consenso de um documento que traduzisse as preocupações
e os anseios das mais de duas centenas de movimentos e associações
que participaram activamente no Fórum Social Português.
O modo como o documento foi redigido não foi certamente o
melhor e é legítimo que muitos dos movimentos e associações
não se revejam plenamente nele. Não foi, no entanto,
esse o caso da CGTP já que integrou a comissão que
o redigiu. No entanto, todos os movimentos e associações
aceitaram a regra do consenso e procuraram enriquecer o texto durante
os debates sem quebra dessa regra. Foi o caso da Pro Urbe, de Coimbra,
de quem fui delegado no Fórum. O documento continha duas
ideias centrais. A primeira era que desde o início da preparação
do primeiro FSP se tinham agravado, tanto a nível global
como a nível nacional, as condições de vida
da grande maioria dos cidadãos impostas pelo neoliberalismo,
pelo que a realização do Fórum fora ganhando
oportunidade e urgência ao longo dos meses de preparação.
A segunda era que o FSP fora um êxito; permitira debater e
dar voz a um conjunto muito vasto de aspirações democráticas
e de lutas contra as múltiplas formas de discriminação
e de exclusão no nosso país e mostrara a sua potencialidade
para contribuir para o enriquecimento da democracia representativa,
através da mobilização dos instrumentos da
democracia participativa. A Pro Urbe, por meu intermédio,
propôs que se enriquecesse o texto com uma terceira ideia
que parecia igualmente consensual entre os movimentos e associações
justamente satisfeitos pelos resultados do seu esforço organizativo:
a decisão de se realizar um segundo FSP. Tendo em vista as
conhecidas resistências da CGTP, a proposta da Pro Urbe estava
formulada num espírito de consenso. Dizia assim: "muitos
movimentos e associações estão já dispostos
a organizar o segundo FSP, enquanto outras, com total legitimidade,
pretendem avaliar o primeiro Fórum antes de decidir da participação
no segundo". Mesmo assim, a CGTP vetou esta proposta com a
justificação de que se não poderia manifestar
a favor do segundo Fórum sem avaliar o primeiro. Esta justificação
não convenceu ninguém já que a avaliação
estava afinal feita no documento proposto à Assembleia e
já que o modo mais convincente de afirmar o êxito do
primeiro Fórum seria - tal como acontecera com o primeiro
Fórum Social Mundial - anunciar a disponibilidade para a
realização do segundo.
Porquê então o veto? Desde os primeiros dias do Fórum
a razão evidente era bem outra: o PCP, inconformado com o
facto de não ter podido instrumentalizar o FSP, mostrara
a sua hostilidade à ideia de transformação
do FSP, de um evento isolado, num processo de participação
democrática alargada e continuada dos cidadãos. Como
salientou Jerónimo de Sousa, numa mesa de diálogo
e controvérsia, "o Fórum começou a 7 de
Junho e termina a 10". Ficou claro para todos que a CGTP foi
posta na posição de actuar na Assembleia como correia
de transmissão do PCP. A desculpa da necessidade de avaliação
parecia esconder (e muito mal) a tentativa de interferir na constituição
da comissão organizadora do segundo Fórum antes de
se comprometer com a sua realização. Queria dizer-lhe
publicamente, Meu Caro Carvalho da Silva, que se tal tentativa existir
ela não terá êxito porque, se tivesse, não
haveria de facto segundo Fórum e os movimentos e associações
querem o segundo Fórum.
Um sinal evidente disto mesmo foi o que se passou na manifestação.
Nos dias anteriores fora feita uma tentativa de consensualizar a
organização da manifestação, posicionando
à frente os movimentos e associações e os partidos
atrás. O PCP e a CGTP opuseram-se e, como tal, não
restou outra solução senão a de caber a cada
organização decidir a sua própria integração
na manifestação. A CGTP e o PCP posicionaram-se na
frente e esperaram que os movimentos e associações
os seguissem. Tiveram efectivamente de esperar muito tempo porque
os movimentos se recusaram a segui-los e fizeram, de facto, a sua
própria manifestação. Confesso-lhe que foi
para mim confrangedor observar a CGTP e o PCP acantonados no centro
dos Restauradores, a ver passar uma alegre, pacífica e plural
manifestação de vontade democrática. Foi um
momento patético e poderosamente metafórico: uma "vanguarda",
congelada no seu próprio isolamento, a assistir incrédula
e impotente à "fuga" do que para ela não
era mais que uma retaguarda. O FSP e a geografia da manifestação
foram os momentos fundadores da autonomia dos movimentos sociais
face às tentativas de manipulação. Foram um
ritual de passagem a caminho da maturidade. Nisto residiu o significado
político mais profundo do FSP.
Meu Caro Carvalho da Silva, espero que a CGTP faça afinal
a avaliação do Fórum e sobretudo da sua actuação
na Assembleia e na manifestação e que dessa avaliação
saia a disponibilidade para participar leal e democraticamente na
organização do segundo Fórum. Se tal suceder,
como anseio, a CGTP será imprescindível para o seu
êxito. Entretanto, quero que continue a contar com a minha
disponibilidade para colaborar com a CGTP em tudo o que contribua
para o fortalecimento de um movimento sindical autónomo e
democrático.
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