| A
elevação a concelho de Canas de Senhorim é
uma vitória do povo democrático. |
Não sou adepto da multiplicação discricionária
de municípios. Não será por essa via que se
conseguirá a redistribuição mais equitativa
de recursos pretendida pela frustrada regionalização.
Mas há casos e casos e Canas de Senhorim é o caso
de uma localidade que merece inteiramente ser elevada a concelho.
As perspectivas e as escalas de análise dos comentadores
políticos são incapazes de detectar e valorizar os
factores que fazem do movimento municipalista de Canas um processo
exemplar de luta democrática pelo direito a ter uma voz autónoma
nas tarefas de desenvolvimento do país. Eis alguns desses
factores.
1. Tratou-se de um genuíno movimento popular, dominado por
um forte espírito comunitário caldeado em experiências
de trabalho nas fábricas e nas minas e de rico associativismo
local e orientado para um objectivo concebido como de participação
democrática: a autonomia municipal. Isto explica a tenacidade
e durabilidade da luta - o movimento remonta a 1975 - e sua capacidade
para manter ao longo de quase três décadas altos níveis
de mobilização.
2. A força do movimento foi-se alimentando de permanente
construção de uma memória comum - e não
esquecendo que Canas foi concelho entre 1196 e 1852 e entre 1867
e 1868 - assente na concepção e execução
das formas de luta, na assunção de símbolos
agregadores e politicamente transversais e na comemoração
de datas marcantes do movimento. É por isso que o dia 2 de
Agosto será provavelmente escolhido para feriado municipal,
por ter sido nesse dia, em 1982, que a população se
mobilizou contra a saída da estação dos correios
da vila, tendo cortado a linha férrea e entrado em confronto
com as forças policiais. É por isso também
que essa data e esse acontecimento se festeja anualmente no largo
2 de Agosto, tendo sido aí também que a população
explodiu de alegria e de festa para celebrar a elevação
a concelho.
3. Sobretudo a partir de 1997, o movimento assumiu uma estrutura
organizativa própria de democracia participativa com reuniões
e sessões de esclarecimento regulares onde se confrontavam
diferentes vozes e opiniões e se definiam estratégias
de acção. E neste domínio é de salientar
o papel das mulheres, uma presença activa mobilizada e mobilizadora
ao longo de todo o processo de luta, com uma participação
por vezes autónoma a significar a sua diferença no
modo de serem iguais na reivindicação da cidadania
no espaço público. Não surpreende por isso
que as mulheres tenham decidido organizar autonomamente um dos dias
de festas que se seguiram à elevação a concelho.
4. O movimento soube combinar a acção directa pacífica
com a acção institucional. É sabido que a vitalidade
da democracia se alimenta de ambos os tipos de acção
e, por isso, na articulação entre elas, se sabiamente
feita, reside o aprofundamento democrático. O movimento de
Canas recorreu à acção directa em múltiplas
ocasiões e foi perspicaz na trama da atracção
dos meios de comunicação social. A algumas acções
menos felizes seguiram-se outras verdadeiramente notáveis
pela sua criatividade (como a do avião que fizeram aterrar
na Assembleia da República). No plano da acção
institucional souberam, em geral, manter a autonomia do movimento
em relação aos partidos. E valha a verdade, os partidos
corresponderam a essa vontade, suspendendo as suas actividades na
localidade. Quaisquer que tenham sido os acidentes da votação
final, é significativo que a elevação a concelho
tenha sido aprovada com os votos do PSD, CDS, PCP, BE e PEV.
Num momento de pessimismo nacional é consolador ver uma comunidade
a festejar o êxito da sua luta pela auto-estima, um êxito
que se afirma numa vitória democrática traduzida numa
votação da Assembleia da República.
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