| Nunca
tantas potencialidades coexistiram com tantos bloqueios |
Acabo de regressar de uma visita a Angola onde não ia há
23 anos. Em 1980, os cooperantes cubanos, que na altura dominavam
a universidade, não acharam conveniente que eu falasse aos
estudantes. Em compensação, passei um tempo maravilhoso
em cavaqueira amena com o Manuel Rui, um grande escritor angolano
e meu amigo. Os tempos mudaram. Desta vez, fui a convite da Faculdade
de Direito para lançar um projecto de investigação
e proferir palestras sobre "a globalização, o
Estado nacional e o direito" e "o desafio da democracia
e o desenvolvimento democraticamente sustentável", esta
última em co-patrocínio do Instituto Superior de Ciências
da Educação e da ADRA (Acção para o
Desenvolvimento Rural de Angola). Há muito tempo que não
tinha o privilégio de falar para um auditório de jovens
tão ávidos de conhecimentos e tão instigantes
nos seus questionamentos.
A primeira impressão que se tem hoje em Luanda - onde, em
consequência da guerra, vive cerca de um terço da população
do país - é de que o país está ainda
a saborear a paz que agora se acredita que seja duradoura. O país
está há quarenta anos em guerra e são agora
mais evidentes do que nunca as imensas potencialidades deste país
antes reprimidas pela violência. E é desta evidência
que surge a segunda impressão: os enormes desafios que se
põem ao Estado e à sociedade angolanos neste momento
de viragem. Identifico quatro desafios principais. O primeiro desafio
é o desafio da desigualdade social. Angola é um país
riquíssimo e a esmagadora maioria do seu povo vive na miséria.
A guerra serviu até agora para encobrir que nas desigualdades
reside uma das mais persistentes continuidades entre a Angola colonial
e a Angola pós-colonial. Aliás, embora as comparações
sejam difíceis, a situação é hoje, neste
domínio, mais grave que no tempo colonial. O segundo desafio
é o da construção de um Estado democrático,
eficiente e íntegro. Também aqui é pesada a
herança do Estado colonial mas ela está longe de explicar
tudo. Este desafio defronta dois grandes obstáculos. O primeiro
é o da corrupção, ou seja, da privatização
do Estado por parte da elite no poder. As histórias que correm
em Luanda sobre negociatas fabulosas, envolvendo líderes
políticos e seus familiares, são deveras preocupantes
tanto mais que o sistema judicial assiste passivo ao que se passa.
O segundo obstáculo é o da difícil interiorização
da mentalidade democrática por parte das forças políticas
que conduzem a transição democrática. O partido
único não deixa de o ser pelo mero facto de reconhecer
a existência de outros partidos e de aceitar a disputa eleitoral.
O terceiro desafio é o da construção de um
modelo político social e cultural genuinamente angolano,
um modelo que assuma o legado cultural do país (muito dele
preexistente ao colonialismo) e o faça de maneira não
tradicionalista, ou seja, em nome de uma racionalidade mais ampla
que a ocidental e de uma modernidade menos imperial e mais multicultural
do que a imposta pelo colonialismo e pela globalização
neoliberal. Finalmente, o quarto desafio é o desafio da reconciliação
nacional. As tarefas de reconciliação nacional são
particularmente exigentes em Angola porque não respeitam
exclusivamente à reconciliação entre os inimigos
da guerra civil. Diz também respeito ao fraccionismo que
quase desde a sua fundação caracterizou o MPLA, desde
a revolta activa e a revolta de leste de 1972 à facção
Chipenda de 1974-75 e à revolta de 27 de Maio de 1977. Só
nesta última terão morrido 60000 pessoas no seguimento
do veredicto de Agostinho Neto: "não perdoamos".
Para sarar estas feridas, Angola deverá ter a coragem de
constituir uma Comissão de Verdade e de Reconciliação.
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