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justiça moçambicana está a ser submetida
a um teste decisivo |
Há países que, em certo momento histórico,
assumem um protagonismo surpreendente. Nos tempos que correm são
países que, pelos indicadores económicos e sociais
usados pelas agências internacionais para medir o "nível
de desenvolvimento", são pobres, atrasados, dependentes
da ajuda externa, a contas com pandemias e com baixíssima
esperança de vida. São, em suma, países à
espera da ajuda da humanidade e donde a humanidade nada pode esperar.
É neste contexto que surge a surpresa de um protagonismo
cujo âmbito extravasa as fronteiras do país.
É este o caso de Moçambique. É moçambicano
um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa, Mia
Couto, e foi neste país que se produziram cinco das cem melhores
obras literárias africanas do século XX. Um cientista
social moçambicano, de renome internacional, José
Negrão, ganhou recentemente o prémio African Leader
pelo seu notável desempenho na preparação e
divulgação da importante Lei de Terras. O Secretário-geral
das Nações Unidas, Kofi Annan, acaba de encomendar
a um arquitecto moçambicano, José Forjaz, o projecto
da sua casa em Accra, no Gana. É o reconhecimento mundial
da obra do arquitecto e urbanista que, em meu entender, melhor sabe
universalizar os valores de África. É moçambicana
uma das melhores atletas do mundo, Lurdes Mutola. E, muito em especial,
saliento o prémio internacional que acaba de ser concedido
ao Juiz Augusto Paulino pelo Media Institute of Southern Africa
pelo modo exemplar como conduziu o julgamento dos assassinos do
jornalista Carlos Cardoso, transformando o julgamento num imenso
exercício pedagógico de justiça independente,
transparência e democracia e sabendo conciliar, como tão
raramente ocorre, os interesses da justiça com os interesses
da comunicação social.
São estes, entre outros, os factores que hoje nos permitem
falar de um desafio moçambicano. O desafio consiste em que
o que hoje acontece em Moçambique é relevante, para
o melhor e para o pior, não apenas para o país mas
também para o mundo inteiro. O desafio transforma-se assim
numa responsabilidade acrescida para este povo, suas elites e suas
instituições. Tal responsabilidade será submetida
a múltiplos testes nos próximos tempos. Um deles está
em curso e os augúrios não são auspiciosos.
Ocorre na área da justiça. Trata-se do julgamento
dos sete polícias que terão facilitado a fuga da prisão
de um dos assassinos de Carlos Cardoso, o Anibalzinho. Se a justiça
moçambicana se dignificou com a actuação do
Juiz Paulino, pode agora estar a ser conspurcada pela actuação
do procurador que conduziu a instrução do processo
e, portanto, da Procuradoria Geral da República por ele responsável.
São tão clamorosas as deficiências da acusação
que é geral a suspeita de que houve a intenção
de encobrir os mandantes da fuga, os quais terão sido eventualmente
os mesmos que mandaram matar Carlos Cardoso. O envolvimento do filho
do Presidente Chissano é referido diariamente na imprensa
sem que este, intrigantemente, apresente queixa por crime de difamação.
A actuação da acusação pública
está tão abaixo dos critérios mínimos
de profissionalismo que só é explicável (não
justificável) pela sua incapacidade de resistir a fortes
pressões externas. Com isto desbarata-se o capital de confiança
que a justiça moçambicana granjeou com o julgamento
do caso Carlos Cardoso. Corre-se o risco de transformar a reforma
judicial actualmente em curso num exercício inútil
ou ainda pior, numa fachada para ocultar a miséria de uma
justiça corrupta ao serviço de um poder político
corrupto.
Se se provar que os poderosos estão acima da lei, o desafio
moçambicano deixar-nos-á mais reduzidos à mediocridade
e à iniquidade do mundo.
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