Em Português

Boaventura de Sousa Santos


     
 
Said, o Intelectual e a Causa
Publicado na Visão em 2 de Outubro de 2003
 
Morreu um dos mais lúcidos intelectuais do nosso tempo

Edward Said não era muito conhecido entre nós. De origem palestiniana, professor de literatura comparada na Universidade de Columbia e o intelectual mais destacado na defesa da causa palestiniana, morreu aos 67 anos em Nova Iorque, no passado dia 24 de Setembro, vítima de leucemia. A importância de Said decorre de uma combinação única entre perfil, obra e causa. Said era um intelectual público, uma categoria de intelectual em extinção. O intelectual público é o profissional das ciências ou das artes que intervém fora do campo profissional, no espaço público, com o objectivo de defender ideias, valores, causas em que se revê como cidadão, consciente de que em tal defesa participam vários conhecimentos para além daquele de que ele é um profissional especializado. O intelectual público é um alvo fácil de críticas, quer por parte dos seus adversários políticos, quer por parte daqueles (às vezes, os seus melhores discípulos) para quem o intelectual se deve confinar ao campo intelectual, deixando a política aos profissionais da política. Pierre Bourdieu, outro notável intelectual público, também recentemente falecido, ilustra bem o que acabo de dizer. No caso de Edward Said, os ataques vieram dos conservadores norte-americanos, do lobby israelita e dos fundamentalistas islâmicos. Em 1999, a revista conservadora Commentary chamava-lhe "o professor do terror". Porquê? Na resposta fundem-se a obra a causa.
Crítico literário e musical e sociólogo da cultura, Said é sobretudo conhecido pelo seu livro Orientalism, publicado em 1978. Influenciado por Foucault, Fanon e Levi-Strauss, Said defende que há uma relação profunda entre cultura e poder, de tal maneira que as representações culturais entre grupos sociais ou entre países reflectem as relações de poder que há entre eles. Quanto mais desigual é essa relação mais enviesada é a representação do mais poderoso a respeito do menos poderoso. Foi assim, segundo ele, que se criou no Ocidente a imagem dos orientais, e nomeadamente dos árabes, como sensuais, corruptos, preguiçosos, atrasados, violentos, em suma, perigosos. Nos dois últimos séculos esta imagem legitimou o poder do Ocidente sobre o Oriente, sobreviveu ao fim do colonialismo e continua hoje a ser o fundamento da política internacional sempre que estão em causa estas duas regiões geopolíticas e geoculturais. O exemplo mais dramático da sua vigência é o tratamento internacional do conflito israelo-palestiniano, a causa de Said.
Nas últimas três décadas, Said foi o mais lúcido defensor das legítimas aspirações do povo palestiniano a viver em paz e com independência na sua terra, ao mesmo tempo que defendia o mesmo direito para os judeus. Isso lhe valeu a hostilidade dos fundamentalistas de ambos os lados. Sempre se manifestou contra o terrorismo mas nunca deixou de afirmar que o terrorismo dos fortes, do Estado de Israel, era muito mais ignominioso que o terrorismo dos fracos, dos bombistas suicidas. Revoltava-se, como muitos de nós, contra a renda do Holocausto de que o Estado colonialista de Israel continua a usufruir no Ocidente para poder perpetrar os seus crimes contra populações civis inocentes e beneficiar da isenção de condenações e sanções que foram aplicadas a outros governos repressivos, como foi o caso da África do Sul. Morreu atormentado pelo muro da vergonha que vai separar famílias, campos de culturas e até universidades, como é o caso da universidade Al Quds. Talvez sem o saber, o presidente desta universidade ilustrou bem a tese do orientalismo ao afirmar: "vamos ficar divididos em jaulas e o único movimento permitido será entre jaulas, tal como no jardim zoológico".

 
 
  Center of Excelence - Assessment of Research Units carried out by the Ministry of Science and Technology, 2005
  CES Center for Social Studies