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Europa dos povos é uma força crucial na construção
de uma nova ordem internacional |
Escrevo esta crónica no final da marcha pela paz que trouxe
cem mil pessoas de muitos países, na grande maioria jovens
italianos, de Perugia à Cidade de Assis, a cidade da paz.
Com esta marcha concluiu-se a 5ª Assembleia das Nações
Unidas dos Povos, uma assembleia que se realiza desde 1995 por iniciativa
da Tavola della Pace (Mesa da Paz), uma vasta coligação
de 500 organizações não governamentais e movimentos
sociais e de 350 municípios italianos que lutam pela paz
e pelos direitos humanos dos povos. A ideia da criação
da Tavola della Pace merece ser referida uma vez que tem hoje uma
grande actualidade. Surgiu da necessidade, sentida por activistas
dos direitos humanos italianos, de reflectir sobre a reforma das
Nações Unidas e de preparar propostas concretas nesse
sentido a apresentar por ocasião das celebrações
dos cinquenta anos da ONU. O Secretário-Geral da ONU era,
nessa altura, Boutros Boutros-Ghali, um diplomata apostado, ele
próprio, na reforma das Nações Unidas, tendo
produzido dois documentos importantes nesse sentido (Agenda para
a Paz e Agenda para a Democratização). Em parte por
isso, os Estados Unidos da América retiraram a confiança
ao Secretário-Geral e impediram que o seu mandato fosse renovado,
ao contrário do que era habitual. Procuraram um outro Secretário-Geral
que servisse os seus interesses, Kofi Annan.
Perdido o ímpeto da reforma da ONU, a partir da ONU, a Tavola
della Pace tomou a seu cargo alimentar essa aspiração,
realizando desde então a Assembleia das Nações
Unidas dos Povos. Para além de uma vastíssima presença
de organizações italianas, a Assembleia inclui representantes
de movimentos pela paz e pela democracia dos quatro cantos do mundo
e outros convidados internacionais. Este ano estavam presentes 210
convidados de 90 países. Tive o gosto de partilhar com o
Dr. Mário Soares a presença portuguesa.
Cada ano a Assembleia tem um tema central. O deste ano foi o papel
e a responsabilidade da Europa no mundo. O tema não podia
ser mais oportuno. Depois do desnorte da Europa no que respeita
à invasão do Iraque, depois dos milhões de
Europeus que em 15 de Fevereiro vieram para a rua manifestar-se
pela paz em comunhão com muitos outros milhões em
todo o mundo, depois da vergonhosa posição adoptada
pela Europa na recente reunião da Organização
Mundial do Comércio em Cancun, depois de os neoconservadores
norteamericanos revelarem os seus planos para dividir a Europa e
fazer dos países em vias de entrar na UE um autêntico
território de caça, depois de tudo isto era urgente
que os cidadãos reflectissem sobre a questão crucial
das responsabilidades globais da Europa. As conclusões foram
perturbadoras. No preciso momento em que a fúria unilateralista
e a agressividade ensandecida dos EUA abrem o espaço geopolítico
para uma alternativa, a Europa, que estaria em condições
em ser parte importante dessa alternativa, está num impasse,
desprovida de política externa, paralisada por um processo
constitucional antidemocrático, presa fácil dos interesses
económicos norteamericanos com um acesso privilegiado aos
comissários relevantes. O que se passou em Cancun foi uma
vergonha para a Europa oficial e uma tragédia para as aspirações
de solidariedade global dos cidadãos europeus. Os mesmos
países europeus que granjearam as simpatias do mundo menos
desenvolvido, ao oporem-se à guerra no Iraque, deram as mãos
aos EUA, recusando-se a discutir os subsídios à agricultura
e a abrir os seus mercados aos produtos dos países asfixiados
pelas políticas do FMI ao serviço dos credores europeus.
Nem sequer os moveu saber que uma vaca europeia consome diariamente
mais fundos públicos que o rendimento diário à
disposição de cada um dos muitos milhões de
habitantes do terço mais pobre da humanidade. Tão
pouco os moveu saber que, enquanto um refugiado africano "vale"
17 cêntimos de um dólar, um refugiado europeu do Kosovo
"vale" quase 2 dólares. Esta hipocrisia impede
a UE de emergir como protagonista de uma nova ordem social e económica
mundial mais justa e mais solidária, respeitadora do direito
internacional e promotora da resolução pacífica
dos conflitos.
Os cidadãos do mundo e sobretudo os cidadãos europeus
reunidos em Perugia concluíram que o potencial europeu para
a construção de uma alternativa ao unilateralismo
agressivo só poderá concretizar-se pela pressão
organizada, pacífica e permanente da sociedade civil europeia,
dos partidos progressistas e dos movimentos sociais inconformados
com a ignara arrogância de tantos dos nossos governantes.
O anúncio, durante a Assembleia, da atribuição
do Prémio Nobel da Paz a uma activista quase anónima
da luta pelos direitos humanos foi um tónico que inundou
a alma e a vontade de todos os presentes.
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