| Um
país que se vê a si próprio como distante
e insignificante, não se vê. |
A informação internacional nos media globais dos
países desenvolvidos obedece hoje a uma lei férrea.
Os países próximos e importantes são noticiados
em função dos temas relevantes para o normal funcionamento
da globalização neoliberal: o desempenho económico,
as grandes reformas estruturais, as eleições, a luta
contra o terrorismo; os países distantes e insignificantes
são noticiados em função da sua extravagância
ou anormalidade: catástrofes naturais, escândalos,
corrupção, violência interna. No primeiro caso,
as notícias aprofundam a proximidade e a importância,
enquanto no segundo sublinham a distância e a insignificância.
Entre 1986 e 1998 Portugal foi internacionalmente noticiado segundo
a lógica dos países próximos e importantes.
Nos anos seguintes, houve prolongados silêncios, nos quais
se operou a transição para a noticiação
segundo a lógica dos países distantes e insignificantes.
Foi assim que a contribuição de Portugal para a globalização
sob a forma da União Europeia deixou de ser notícia
e foi substituída pelos casos de pedofilia e pelas meninas
de Bragança. No primeiro caso, os escândalos sexuais
dos ricos e poderosos; no segundo, os escândalos sexuais dos
comuns mortais. Em ambos os períodos, a informação
tem um carácter transicional, expresso, no primeiro período,
na surpresa de um país pouco conhecido e atrasado a aproximar-se
da normalidade europeia e desenvolvida, e, no segundo período,
na curiosidade de um país estranho e profundo a continuar
a reinar sob o país oficial, incapaz de manter o verniz da
normalidade que cabe a um país europeu. Em ambos os casos,
a transição não permite estabilizar uma imagem
não paradoxal do nosso país. Por isso, na lógica
dos paradoxos, de Portugal só se sabem meias-verdades porque
só há meias-verdades.
Os portugueses nada podem fazer para alterar esta lei de ferro e,
no espaço de uma ou duas gerações, pouco poderão
fazer para modificar a sua aplicação em relação
a Portugal. Nada disto é, em si, muito grave, se tivermos
em conta que a lógica dos media globais tem pouco a ver com
a complexidade do que se passa nos diferentes países, com
as dinâmicas contraditórias cujo desconhecimento é
afinal o fundamento da construção da novidade das
notícias. O que é grave é que os portugueses
se estejam a ver a si próprios segundo esta lógica
hegemónica, isto é, como um país distante e
insignificante ante si próprio. Como um país onde
o escândalo da verdade do agravamento das desigualdades sociais
e do retrocesso na nossa integração na EU passa despercebido
e é avassalado pela suposta verdade dos escândalos
de elites certamente tão extravagantes quanto as de outros
países e de mortais afinal tão trivial e globalmente
comuns. A gravidade desta auto-imagem paralisante está nas
causas da sua inculcação e difusão: uma comunicação
social em grande medida controlada por grandes grupos económicos,
servidos por comentadores neoconservadores, interessada em que a
realidade da injustiça social, do desinvestimento na educação
e na ciência, da privatização da saúde
e da segurança social e de uma política económica
suicida não desestabilize um governo conservador do qual
esperam algumas rendas de curto prazo; sindicatos e movimentos sociais
demasiado débeis para gritar que o rei vai nu de modo que
se ouça nas ruas; elites habituadas a privatizar o Estado
e tudo o que lhe pertence ou está à sua guarda (porventura
crianças); uma classe política que, mesmo no seu melhor,
não sabe o que é a separação de poderes
e ignora que a responsabilidade política é muito mais
exigente que a criminal.
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