| Entre
o desastre e a esperança, a consciência de vivermos
no mundo. |
Depois de mais de vinte anos de intensificação da
globalização, começa a emergir uma nova forma
de senso comum que poderíamos designar por consciência
do mundo.
Trata-se da representação popular de que, além
de vivermos em nossas casas, cidades e países, vivemos também
no mundo. Até há pouco, a expressão viver no
mundo não tinha qualquer conteúdo. Significava tão-só
estar vivo. A substância do que significa viver residia em
escalas muito mais reduzidas, e era ao nível delas que dávamos
sentido à nossa vida, enquanto membros de famílias
e associações, cidadãos, membros de comunidades
ou grupos étnicos. Hoje, a escala do mundo começa
a ter uma consistência própria nas nossas experiências
de vida. O mundo entra hoje na vida das pessoas de múltiplas
formas: quando vêem ou ouvem notícias, vão às
compras, são despedidas ou morrem de fome ou de doença.
E, o que é verdadeiramente novo, isso acontece em praticamente
todo o mundo. Cada vez mais o que acontece no mundo afecta-nos pessoalmente.
E como o mundo é uma escala de consciência muito vasta
e as desigualdades que o compõem cada vez maiores, a consciência
que se tem dele é ambígua e mesmo contraditória,
dependendo não só do lado do mundo em que vivemos,
como também da natureza dos acontecimentos que nos dão,
ora sinais de esperança, ora de desastre iminente.
A última semana contribuiu como poucas para aprofundar a
nossa consciência do mundo e para vincar as contradições
que o habitam. Do lado do desastre, a violência política
na Turquia é um factor novo na consciência do mundo,
sobretudo dos povos do Médio Oriente e da Europa. Para os
povos do Médio Oriente, significa que as suas vidas vão
ser cada vez mais afectadas pelo acto imperial e ilegal da invasão
do Iraque. A instabilidade aumentou em vez de diminuir, como prometiam
os invasores, e vai alastrar a outros países da região.
Para os povos europeus são cada vez mais claros a miopia,
o preconceito e mesmo a má fé com que a União
Europeia tem tratado a questão da Turquia. O governo turco,
moderado e de raízes islâmicas, à medida que
vai cumprindo as condições para adesão à
UE, é confrontado com novas condições, a última
das quais é a resolução do caso de Chipre.
Se a UE quer ser um factor de estabilidade no mundo, deverá
aproximar as suas fronteiras ao Médio Oriente, desta vez
a convite do governo turco, e não a ferro e fogo, como aconteceu
com as cruzadas.
Do lado da esperança, a semana passada entrou na consciência
do mundo, sobretudo dos europeus e dos latino-americanos. Dos europeus,
porque depois do êxito do Fórum Social Europeu, foi
possível mostrar nas ruas de Londres, nos protestos contra
a visita de Bush, que a paz continua a ser mobilizadora apesar da
intoxicação belicista dos media conservadores (editoriais
semelhantes a favor da guerra foram publicados nos 175 jornais controlados
por Rupert Murdock). E também se mostrou que não é
hoje possível uma relação simétrica
com os EUA, pois nem o apoio incondicional de Blair a Bush conseguiu
extrair deste alguma concessão (e.g. direito internacional
em Guatanamo). Para os latino-americanos e para o mundo em geral,
a esperança veio do fracasso da reunião de Miami da
projectada Área de Livre Comércio das Américas.
A actuação brilhante da diplomacia brasileira permitiu
inculcar na consciência do mundo dois factos cruciais: o livre
comércio só é aceitável quando deixar
de ser o mecanismo de submissão dos países menos desenvolvidos
aos mais desenvolvidos; entre os direitos de patentes que geram
lucros fabulosos para as empresas farmacêuticas e a vida dos
muitos milhões afectados pelo HIV-Sida e por outras pandemias,
não resta outra opção digna do mundo senão
a de salvar vidas.
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