| Transformar
as propinas em democracia participativa. |
O que leva a considerar em crise, num dado momento histórico,
certas instituições tem menos a ver com o desempenho
do que com o grau de coerência delas com o modelo civilizatório
dominante. Depois de vários séculos de domínio
económico e político, o capitalismo global conseguiu
nos últimos trinta anos consolidar o domínio cultural
e, ao fazê-lo, construiu um novo modelo civilizatório
assente na absoluta primazia do mercado e na extensão da
sua lógica a todos os aspectos da vida social. À luz
deste modelo, tudo o que é público está, quase
por definição, em crise. A crise da universidade pública
não decorre, pois, de um problema de financiamento. Apesar
do seu corporativismo e burocratismo, a universidade foi desde sempre
uma instituição cultural dominada por uma forma de
competição alternativa à do mercado, a competição
pela excelência e pelo mérito, sendo a eventual tradução
do mérito em valor mercantil um processo exterior à
universidade.
No momento em que o capitalismo global conquista o domínio
cultural, a competição pelo mérito só
faz sentido enquanto competição pelo mercado e, para
isso, é preciso transformar o mérito em mercado do
mérito, não apenas fora, mas também dentro
da universidade. E para funcionar o mercado do mérito é
preciso que o mérito se redefina pelo seu valor mercantil.
A resistência da universidade pública a esta transformação
explica que ela esteja em crise não só no nosso país
como no mundo inteiro. Em face disto, as forças sociais e
políticas interessadas em transformar esta resistência,
de sinal de crise, em estratégia de saída da crise,
têm de tomar consciência que não irão
muito longe se mantiverem a luta no plano do sim ou não às
propinas. Terão de procurar o elo fraco deste modelo civilizatório,
algo que ele tenha dificuldade em deslegitimar mesmo quando lhe
é contrário. Em meu entender, esse elo fraco é
a democracia participativa.
Daí a minha proposta para o caso de ser politicamente inviável
a gratuitidade do ensino publico: uma vez garantida a igualdade
de acesso, o pagamento das propinas deve ser um exercício
de democracia participativa que permita à universidade reorientar
estrategicamente o seu futuro, decidindo democraticamente o grau
de consonância ou dissonância que pretende em relação
ao modelo civilizatório dominante.
A proposta consiste no seguinte. As universidades devem reorganizar
a sua contabilidade de modo a tornar transparente e clara a distinção
entre despesas correntes e despesas de investimento. O Estado assegura
a totalidade das despesas correntes e parte das de investimento;
as propinas, que serão consideradas contribuições
da sociedade e não dos estudantes, destinar-se-ão
a complementar as despesas de investimento.
No primeiro ano em que for adoptada a utilização participativa
das propinas, uma assembleia universitária constituinte decidirá
sobre o método a seguir. Proponho um método com o
seguinte perfil. Haverá três assembleias interfacultárias,
uma por cada corpo (docente, estudantes e funcionários).
Cada assembleia deve incluir entre duas e três faculdades.
As assembleias terão dois objectivos: 1) discutir a definir
as grandes áreas de investimento e o grau de prioridades
de cada uma; 2) eleger os delegados (1 delegado por x número
de participantes) ao Conselho das Propinas (CP). Ao CP compete:
1) harmonizar as propostas vindas das assembleias; 2) hierarquizar
as áreas de investimento e definir o montante financeiro
disponível para cada área. Nas votações
do CP haverá uma ponderação do peso do voto
dos delegados dos diferentes corpos. As decisões do CP serão
explicadas em assembleias de faculdades abertas a todos os corpos.
Tornadas públicas as áreas, as hierarquias e os montantes,
será dado um prazo para a apresentação de projectos.
Estes podem ser apresentados por qualquer grupo de docentes, estudantes
e funcionários, pelas faculdades, centros de investigação,
Reitoria e seus serviços centrais.
O CP nomeará uma comissão de peritos para avaliar
os projectos. Os projectos científicos serão avaliados
por uma comissão constituída exclusivamente por docentes
e investigadores. Todos os outros projectos serão avaliados
por comissões com representantes dos três corpos. Em
qualquer caso, os membros das comissões serão recrutados
noutras universidades portuguesas ou estrangeiras. Feita a avaliação,
compete ao CP decidir o montante a atribuir a cada projecto aprovado,
tendo em conta o mérito do projecto e o grau de prioridade
da área de investimento em que se integra. Os resultados
serão amplamente difundidos. O CP nomeará uma comissão
de acompanhamento encarregada de monitorar a realização
dos projectos aprovados, que apresentará um relatório
a ser discutido no CP e nas assembleias interfacultárias
do ano seguinte.
Um método com este perfil garantirá a transparência
na utilização das propinas, mobilizará a universidade,
e fará dela um testemunho da única alternativa à
lógica do mercado: a democracia participativa.
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