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A quarta edição do Fórum Social Mundial (FSM),
que se realizou em Mumbai (Índia) de 16 a 21 de Janeiro,
constituiu um passo muito significativo na consolidação
do processo FSM. As três primeiras edições tinham-se
realizado em Porto Alegre com escassa presença de delegados
africanos e asiáticos, o que tinha levado muitos a pensar
que o FSM, apesar de pretensamente mundial, era, de facto, uma iniciativa
latino-americana e europeia. O êxito do FSM de Mumbai significou
que o espírito de Porto Alegre - a crença de que um
mundo mais justo e mais solidário é possível
e a vontade política de lutar por ele - constitui uma aspiração
universal. Pôde ser recriado na Ásia e não há
nenhuma razão para pensar que o não possa ser em África
ou noutras partes do mundo. Aliás, está já
decidido que o FSM posterior ao de 2005 - desde o ano passado marcado
para Porto Alegre - será realizado em África, em 2006
ou 2007, consoante o FSM continue a realizar-se anualmente ou passe
a ser bianual, uma decisão que será tomada na próxima
reunião do Conselho Internacional do FSM em Abril próximo.
O FSM de Mumbai mostrou ainda que o espírito de Porto Alegre,
sendo uma aspiração universal, adquire tonalidades
próprias em diferentes regiões do mundo. A sua universalidade
decorre do próprio âmbito da globalização
neoliberal, ao submeter todas as regiões do mundo ao mesmo
modelo económico e às suas consequências: o
aprofundamento das desigualdades sociais, a desmoralização
do Estado e a destruição do meio ambiente. Neste sentido,
a escolha de Mumbai para a realização do Fórum
não podia ter sido mais acertada. Com cerca de 15 milhões
de habitantes, Mumbai é o símbolo vivo das contradições
do capitalismo contemporâneo. Importante centro financeiro
e tecnológico e sede da pujante indústria cinematográfica
da Índia - a Bollywood, que produz mais de 200 filmes por
ano para um público cada vez mais global - Mumbai é
uma cidade de pobreza certamente chocante aos olhos ocidentais.
Mais de metade da população vive em bairros da lata
(cerca de dois milhões, na rua), enquanto 73% das famílias,
em geral, numerosas, vivem em habitações de uma só
divisão. O crescimento recente da economia informal faz com
que 2% da população total sejam vendedores ambulantes.
Mas na Índia a luta contra este pano de fundo de desigualdade
adquire cambiantes específicos e esses imprimiram a marca
a este Fórum. Primeiro, às desigualdades económicas,
sexuais e étnicas somam-se aqui as desigualdades das castas
que, apesar de constitucionalmente abolidas, continuam a ser um
factor decisivo de discriminação. Os dalits, uma das
castas inferiores, anteriormente designados por "intocáveis",
tiveram uma presença muito forte no Fórum. Dos 100.000
participantes mais de 20.000 foram dalits que viram no Fórum
uma oportunidade única de denunciar ao mundo a discriminação
de que são vítimas. Segundo, o factor religião,
que no Ocidente tende a ter menos peso em razão da secularização
do poder, é no Oriente um factor social e político
de primeira ordem. O fundamentalismo religioso - que avassala toda
a região, e a própria Índia com a crescente
politização do hinduísmo - foi um tema central
de debate, bem como o papel da espiritualidade nas lutas sociais
por um mundo melhor. Terceiro, tendo lugar na Ásia, o Fórum
não podia deixar de dar uma particular atenção
à luta pela paz, não só porque é na
Ásia ocidental, do Iraque ao Afeganistão, que a agressão
belicista dos EUA mais se faz sentir, como também porque
a Ásia do Sul (Índia e Paquistão) é
hoje uma região fortemente nuclearizada. Neste espírito,
a Assembleia dos Movimentos Sociais convocou para o dia 20 de Março,
primeiro aniversário da invasão do Iraque, uma manifestação
mundial contra a Guerra. Quarto, no FSM de Mumbai a concepção
ocidental de luta ecológica foi postergada em favor de concepções
mais amplas que incluem a luta pela soberania alimentar, pela terra
e pela água, pela preservação da biodiversidade
e dos recursos naturais e pela defesa das florestas contra a agro-indústria
e a extracção de madeiras.
Pelo seu próprio êxito, o FSM de Mumbai cria novos
desafios ao processo do FSM. Identifico três principais. O
primeiro é o da expansão do Fórum. Não
se trata apenas da expansão geográfica mas também
da expansão temática e de perspectivas. Neste sentido,
será cada vez mais incentivada a realização
de fóruns locais, nacionais, regionais e temáticos
de modo a aprofundar a sintonia do "Consenso de Porto Alegre"
com as lutas que mobilizam os grupos sociais. Segundo, o FSM tem
vindo a acumular um impressionante conjunto de conhecimentos sobre
as organizações e os movimentos que o integram, sobre
o mundo em que vivemos e as propostas que vão sendo apresentadas
e postas em prática para o transformar. Este acervo tem de
ser avaliado cuidadosamente para potenciar a sua utilidade, tornar
o Fórum mais transparente para si próprio e permitir
a todos uma oportunidade única de auto-aprendizagem. Daí
que se tenha discutido mais que antes a relação entre
as ciências sociais e os conhecimentos populares. Terceiro,
à medida que se acumula o conhecimento e se identificam as
grandes áreas de convergência, cresce a necessidade
de se desenvolverem planos de acção colectiva. Não
se trata apenas de aumentar a eficácia do FSM - já
que esta não se mede tanto por acções globais,
como por acções locais e nacionais - mas sobretudo
de preparar respostas às tentativas por parte do Banco Mundial,
do FMI e do Fórum Económico de Davos de se apropriarem
das agendas do FSM e as descaracterizarem em favor de soluções
que não belisquem a desordem económica em curso. Dada
a sua natureza de espaço aberto, o FSM não assumirá
propostas em nome próprio mas facilitará a articulação
entre as redes que o constituem no sentido de aprofundar os planos
de acção colectiva e de os levar à prática.
Depois de Mumbai, o FSM é cada vez mais um processo que irá
dando notícias cada vez mais desestabilizadoras para aqueles
que, cinicamente instalados nos dividendos da injustiça social,
pensam que o mundo nunca mais deixará de girar em seu favor.
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